No último dia 24 de janeiro, o Brasil deu um passo importante para se tornar um país com capacidade própria de lançamentos à órbita terrestre. O consórcio composto por um pool de empresas conduziu um teste estrutural do primeiro estágio daquele que virá a ser o Microlançador Brasileiro (MLBR).

O foguete está sendo desenvolvido pela empresa Cenic, instalada em São José dos Campos (SP), em parceria com Concert Space, Plasmahub, Delsis e Etsys. O projeto, que também conta as parceiras estratégicas Bizu Space, Fibraforte, Almeida’s e Horuseye Tech, tem apoio financeiro da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações), com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

O MLBR é um veículo de 12 metros e três estágios, todos movidos a combustível sólido (tecnologia que o Brasil já domina há décadas com seus foguetes de sondagem e que também fazia parte do antigo VLS, o lançador nacional de satélites que fracassou em duas tentativas de atingir a órbita, em 1997 e 1999, e acabou cancelado após o acidente ocorrido em Alcântara na terceira tentativa de lançamento, em 2003). Mais modesto que o antigo VLS, ele tem por objetivo colocar cargas úteis de até 40 kg em uma órbita terrestre baixa de 450 km de altitude. É o suficiente para micro e nanossatélites atuais, que nem existiam quando o VLS foi projetado.

O contrato, no valor de R$ 189 milhões, foi firmado em novembro de 2023 e o projeto já passou por etapas importantes em seu desenvolvimento, como a revisão de design preliminar e a revisão de design crítica, concluída em maio do ano passado. A parte empolgante é que agora o MLBR sai da etapa em que a ação acontecia nas pranchetas para a que envolve a construção de hardware e testes de larga escala no mundo real.

No fim do ano passado foram realizados testes, em um avião, do sistema de navegação inercial (que guia o foguete). E no último dia 24 foi a vez de um teste hidrostático do primeiro estágio.

O objetivo foi simular as condições reais de voo, e ir além delas, reproduzindo a pressão interna gerada pelos gases de combustão e as cargas longitudinais durante um lançamento. Isso não foi feito com uma queima real, mas com o preenchimento e pressurização do estágio com água. Em essência, os técnicos foram aumentando a pressão interna até a ruptura, que aconteceu a 103 bar (101,6 atmosferas, ou 101,6 vezes a pressão atmosférica terrestre ao nível do mar). Isso é muito mais do que a operação nominal do estágio em voo, 67 bar.

É um passo importante, mas muitos outros ainda virão, com a qualificação laboratorial dos subsistemas do foguete (com testes de vibração, variação térmica, interferência eletromagnética e integração dos componentes eletrônicos). E alguns deles, como o sistema de navegação inercial, devem passar também por testes em voo, embarcados em outros foguetes, antes que o MLBR esteja pronto para sua primeira missão.

O consórcio ambiciona um primeiro voo ainda em 2026, a partir de Alcântara, mas é mais uma aspiração do que um cronograma. Enquanto não houver a conclusão dos testes, é impossível estimar a data do primeiro voo. Mas é um alento ver tecnologia sendo efetivamente testada para colocar o Brasil, pé ante pé, mais próximo de ter alguma autonomia para lançamentos à órbita terrestre, uma meta perseguida (com mais ou menos afinco) há quase meio século.

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