Conforme prometido, a presente coluna, que dá continuidade à nossa série Como Deus Nasceu, será um mergulho na complexa mitologia dos cristãos gnósticos, cuja atividade literária floresceu principalmente entre os séculos 2º e 4º d.C.
Como vimos no texto anterior da série, os grupos que hoje chamamos de gnósticos muitas vezes retratavam o Deus do Antigo Testamento ou da Bíblia hebraica como um ser maligno e limitado que enganava a humanidade, enquanto Jesus seria um representante do verdadeiro Deus. Uma das descrições mais completas desse mito aparece no texto antigo conhecido como “Apócrifon de João”, “Livro Secreto de João” ou “Revelação Secreta de João”.
Você pode encontrar uma das versões do texto no volume “The Nag Hammadi Scriptures” (“As Escrituras de Nag Hammadi”), editado por Marvin Meyer, e há um bom comentário sobre ele em “Gnosticism: From Nag Hammadi to the Gospel of Judas”, série de palestras de David Brakke na plataforma The Great Courses.
A narrativa do “Livro Secreto de João” (adotemos esse nome, daqui em diante) começa após a ressurreição de Jesus, quando o apóstolo João visita o Templo de Jerusalém e é criticado por um membro da seita judaica dos fariseus, segundo o qual “esse Nazareno” havia enganado seus seguidores e os levado a se desviar das tradições de seus ancestrais.
Triste e angustiado, João sai do Templo, vai para uma montanha e, quando começa a se questionar sobre a natureza e a mensagem de Jesus, “os céus se abriram e o mundo sacudiu”. Uma figura humana aparece diante dele, e ela fica mudando de forma. “João, João, por que estás duvidando?”, diz esse ser cambiante, que se apresenta da seguinte maneira:
“Eu sou o Pai, eu sou a Mãe, eu sou o Filho. Sou o incorrupto e o que não foi conspurcado. Vim te ensinar sobre o que é, sobre o que foi e sobre o que há de vir.”
O ensinamento divino que João recebe então tem a ver principalmente com as origens e a natureza do Cosmos e da humanidade. Segundo o texto, a fonte de tudo é o Uno, o Espírito Invisível:
“Não devemos pensar nele como se fosse um deus ou semelhante a um deus. Pois ele é maior do que um deus, uma vez que não há nada acima dele (…) O Uno não é corpóreo e não é incorpóreo. O Uno não é grande e não é pequeno. (…) Pois ninguém é capaz de entendê-lo.”
O Uno, ao contrário do Deus do livro do Gênesis, não cria nada de forma direta ou deliberada. Mas, sendo puro pensamento e espírito, seu ato de refletir sobre si mesmo gera novas emanações ou entidades espirituais em “ondas” sucessivas que se derramam a partir dele em pares de natureza masculina e feminina –e, ao mesmo tempo, como seres únicos andróginos (sim, é confuso mesmo…).
A primeira e mais importante dessas emanações é chamada de Barbelo (nome de etimologia duvidosa). O olhar luminoso do Uno (ou Pai) faz com que Barbelo conceba e gere o Filho, formando uma estrutura paralela à Santíssima Trindade da fé cristã atual (Pai, Filho e Espírito Santo).
Mas há um problema. A cascata de emanações espirituais a partir do Uno chega até a entidade chamada Sophia (“sabedoria”, em grego). Sophia quer conceber, assim como Barbelo, mas, em vez de aguardar a permissão do Espírito do Uno, resolve gerar um filho sozinha.
Começa aí a grande tragédia cósmica. O rebento de Sophia é uma criatura disforme e rebelde chamada Yaldabaoth. Sophia o lança para longe do Uno, e Yaldabaoth, sem reconhecer a autoridade das verdadeiras entidades espirituais, põe-se a criar para si mesmo um exército de seguidores, anjos e demônios, e um mundo físico –o nosso Universo. E, tal como Yahweh/Javé na Bíblia hebraica, Yaldabaoth anuncia: “Eu sou um deus ciumento, e não há nenhum outro deus além de mim”.
Mas Sophia enfim se dá conta do que de fato aconteceu quando seu filho rebelde foi gerado, e “se arrependeu com muitas lágrimas”. Ela recebe o perdão de seus companheiros, e o reino do Uno (chamado de “Pléroma” –algo como “Completude”, em grego) produz a imagem da Humanidade ou Primeiro Homem, que se projeta nos céus criados por Yaldabaoth e seus serviçais.
Ao contemplar essa imagem, o filho rebelde de Sophia resolve criar um ser humano, mas, a princípio, ele está inerte. Mensageiros enviados do mundo espiritual instruem Yaldabaoth a soprar seu espírito nesse corpo humano (tal como na Bíblia). E, como esse espírito vem de Sophia, o criador rebelde, sem querer, infunde no primeiro ser humano (aqui também chamado de Adão) a essência divina e incorruptível vinda do Uno.
A história prossegue seguindo de perto vários eventos do Gênesis bíblico, como a criação de Eva, a expulsão do Paraíso e o Dilúvio. Mas com uma diferença crucial. Aqui, Adão e Eva, ao se alimentar do fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal, são orientados por uma águia, e não por uma serpente, e essa águia é o próprio Jesus, em seu papel como Filho do Uno.
O fruto, aqui, é visto como a fonte do conhecimento sobre a verdadeira natureza espiritual dos seres humanos. E o papel de Jesus, em vez de salvar a humanidade por seu sacrifício na cruz, é ensinar aos seres humanos como despertar para essa verdade e se livrar da tirania de Yaldabaoth.
Ufa! E olha que o resumo acima é a versão mais simplificada possível da lógica por trás do texto. Na próxima coluna, voltaremos a águas não tão profundas para examinar outras crenças do cristianismo primitivo sobre Jesus, um pouco antes que a fé em Cristo se tornasse a religião oficial de Roma. Até lá!