Presença frequente em agendas oficiais de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a primeira-dama de São Paulo, Cristiane Freitas, tem sido cada vez mais vista por auxiliares do Palácio dos Bandeirantes como uma das principais conselheiras políticas do governador e como um dos polos informais de decisão no governo.

Servidores atribuem a ela influência na indicação ou veto de nomes para a equipe e na avaliação de uma eventual candidatura de Tarcísio à Presidência da República.

Na opinião de assessores e funcionários ouvidos pela Folha, sua atuação extrapola o papel institucional da primeira-dama à frente do Fundo Social, órgão voltado a projetos sociais, cursos de qualificação e campanhas de arrecadação.

O governo nega que haja interferência de Cristiane em qualquer assunto além de suas funções.

Um dos episódios mais recentes citados por auxiliares foi o veto ao retorno de Diego Dourado, cunhado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), à equipe da Casa Civil. Dourado atuou como articulador político do governador e estava envolvido nas negociações para a liberação de emendas de deputados estaduais. Ele deixou o governo no fim do ano passado, alegando cansaço, segundo integrantes da gestão.

Em janeiro, quando Tarcísio nomeou Roberto Carneiro, presidente do Republicanos-SP, para o comando da Casa Civil, Dourado foi chamado para retornar pelo novo secretário. De acordo com relatos colhidos pela Folha, Cristiane se opôs à volta do parente de Bolsonaro ao governo, e sua opinião levou ao veto.

Com a mudança no comando da pasta, ainda segundo auxiliares que falaram sob reserva, o novo secretário teria recebido uma lista de servidoras a serem dispensadas, atribuída à primeira-dama. A reportagem pediu entrevista com o secretário por mensagem e via assessoria, sem sucesso.

Ao menos quatro integrantes, todas assessoras especiais do gabinete, foram desligadas do fim de janeiro para cá, entre elas funcionárias que despachavam diretamente com o governador. Segundo auxiliares, a decisão teria relação com o desconforto da primeira-dama em relação à proximidade das servidoras com o marido. Carneiro resistiu à demissão de uma quinta indicada.

“Não houve e não há interferência da primeira-dama em nenhum assunto ou decisão da gestão estadual para além do escopo de atuação do Fundo Social. Os relatos mencionados não condizem com a realidade”, disse o governo, em nota. A Folha pediu entrevista a Cristiane, que não foi concedida.

Cristiane, 53, está casada com Tarcísio desde 1997. Natural de Parnamirim (RN), filha de militar, cresceu na vila militar da cidade e casou-se com o governador quando ele ainda era segundo-tenente do Exército. Eles têm um filho de 20 anos e uma filha de 17. Pessoas próximas a descrevem como atenta à rotina pessoal do marido, incentivando-o a manter hábitos mais saudáveis.

A primeira-dama é formada em gestão pública. Ainda no Rio Grande do Norte, foi gerente de uma loja de shopping. Quando Tarcísio era servidor federal em Brasília, o casal foi sócio do ex-deputado federal Major Vitor Hugo (PL-GO) em um curso preparatório de concursos públicos.

O marido dá projeção às políticas públicas tocadas pela mulher, em especial em eventos de formatura de alunos de cursos profissionalizantes do Fundo Social. Um desses eventos ocorreu em dezembro, lotando o auditório do Palácio dos Bandeirantes. Outro foi realizado na última quinta-feira (12).

Na solenidade desta quinta, no auditório lotado, a aposentada Jane Ivanovski, 69, moradora de São Bernardo do Campo (Grande SP), se espremeu entre seguranças e outros alunos para tirar uma selfie com Cristiane. “Dou todo o apoio a eles. Todo o respeito. É a primeira-dama que a gente sonha”, disse, ao lado de amigas que frequentam cursos do programa.

No palco do evento, estava o deputado Paulo Freire (PL-SP), mas não a deputada federal Rosana Valle (PL-SP), nome que Michelle Bolsonaro defende para uma das vagas ao Senado. Foi um sinal de desprestígio, atribuído à primeira-dama.

A deputada negou o constrangimento. À Folha, disse que já havia estado no palco em outras cerimônias de formatura e que o governo faz um rodízio entre os deputados que colaboram com a iniciativa.

Em janeiro, Cristiane entrou na mira do clã Bolsonaro após comentar nas redes sociais de Tarcísio que o Brasil precisava “de um novo CEO, meu marido”. A equipe do governador afirmou, à época, que se tratava de uma forma habitual de tratamento do casal, sem conotação política.

Auxiliares relatam que Cristiane passou a se informar com mais frequência sobre temas de governo por meio de sua chefe de gabinete no Fundo Social, Raquel Berti, ex-assessora da deputada estadual Valéria Bolsonaro (PL).

Em outubro de 2024, Cristiane levou Raquel para o Fundo Social, após a assessora se desentender com Valéria na Secretaria da Mulher. No mesmo período, aliados relataram insatisfação do governador com o desempenho da pasta.

Raquel acompanhou a solenidade desta quinta no palco, em área reservada às autoridades. Ao agradecer à equipe do órgão, Tarcísio olhou na direção dela e acenou com a cabeça. A reportagem tentou contato com a chefe de gabinete, que não respondeu.

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