Uma expedição ao norte da África revelou uma nova espécie de espinossauro, um grupo de dinossauros carnívoros aquáticos. O Spinosaurus mirabilis viveu a mais de mil quilômetros da costa no mar de Tétis (o grande oceano que banhava os dois supercontinentes Laurásia e Gondwana) há 95 milhões de anos.
O fóssil foi encontrado em uma localidade inédita, chamada de Sirig Taghat (que significa sem água, sem cabra, na língua local), em Jenguebi, região de Agádez, no norte do Níger.
A pesquisa que levou ao achado, descrito na edição da revista Science de 19 de fevereiro, foi liderada pelos paleontólogos Paul Sereno e Daniel Vidal, da Universidade de Chicago (Estados Unidos).
O Spinosaurus mirabilis podia chegar a oito metros de comprimento. Ele tinha uma crista no topo da cabeça, entre o osso frontal (recobre a “testa”) e os nasais (formam parte do rostro ou “focinho”), e dentes afiados semelhantes aos de crocodilos atuais.
A crista é uma característica única da espécie do Níger. É também a maior estrutura do tipo já encontrada em um dinossauro não aviano.
A criatura possivelmente mantinha hábitos parecidos com os da garça-real moderna, isto é, caçava peixes em riachos e corpos d’água superficiais.
Além de partes da mandíbula e do crânio (incluindo a crista preservada), vértebras e fragmentos de costelas, os pesquisadores acharam ossos do pé direito, da bacia pélvica, parte do fêmur e da tíbia esquerda e alguns dos elementos costais que formam a vela característica desse grupo.
O gênero Spinosaurus é um dos mais novos (em idade) conhecidos para o grupo dos espinossaurídeos. Agora, o grupo conta com duas espécies: o S. mirabilis e o S. aegyptiacus, descrito em 1915 no Egito.
Sereno afirmou que o fóssil foi encontrado depois de um esforço em uma expedição em 2019. Inicialmente, houve a localização de alguns dentes isolados e fragmentos ósseos.
Ele e seus colegas estavam quase desistindo da viagem quando um morador foi ao acampamento e disse que poderia levá-los a uma área onde tinha visto alguns ossos.
A equipe de pesquisa retornou em 2022 e se deparou com mais ossos de Spinosaurus, além de fósseis de um dinossauro pescoçudo ainda desconhecido.
O artigo traz evidências que “confirmam que esses grandes carnívoros comedores de peixe entravam em águas rasas ao longo da costa e no interior [do supercontinente] às margens dos rios como modo de vida”.
A descoberta vai na contramão de uma ideia corrente a partir de outros fósseis do grupo —e inclusive reproduzida em filmes e animações— de que os espinossaurídeos mais derivados (dentro da linhagem Spinosaurinae, do qual fazem parte as duas espécies do gênero Spinosaurus) seriam predadores que perseguem suas presas no mar, à imagem do espinossauro no filme “Jurassic World: Recomeço”.
“Eles estavam mais para ‘garças do inferno’, com cristas para se exibirem e vida social ativa ao ar livre, do que para predadores de mergulho e perseguição como uma orca”, afirma o cientista.
No artigo, os autores ainda descrevem o que seriam três fases bem marcadas na história evolutiva do grupo. A primeira, no final do Jurássico e início do Cretáceo (há aproximadamente 175 milhões a 140 milhões de anos), durou 35 milhões de anos e representou quase metade de todo o registro fóssil conhecido dos espinossauros. Essa fase é registrada a partir de dentes isolados adaptados para a alimentação piscívora, embora restos fósseis e esqueletos completos ainda fossem escassos.
A segunda durou cerca de 20 milhões de anos no início do Cretáceo (135 milhões a 115 milhões de anos atrás) e representa o apogeu dos espinossauros, quando se tornaram os maiores e mais comuns predadores na região costeira do mar de Tétis. Nesse intervalo, formas bem conhecidas como o Iberospinus, onde é hoje a Península Ibérica, o Suchomimus, na África e o Irritator, da bacia do Araripe no Brasil, ajudaram a evidenciar uma nova anatomia corporal dos espinossauros, com uma cabeça mais leve comparada aos dinossauros carnívoros terópodes e braços mais longos para a captura de presas em postura bípede.
Por fim, a terceira fase evolutiva do grupo teve uma duração de cerca de 15 milhões de anos (entre o Aptiano e o fim do Albiniano, há cerca de 113 milhões de anos, e o Cenomaniano, há 98 milhões de anos).
É nessa fase que as formas mais derivadas, que os autores classificam como Spinosaurini, incluindo o novo fóssil do Níger, surgiram, desenvolveram-se e morreram ao final do Cenomaniano, com o desaparecimento completo do grupo.
Também foi a fase de maior especialização do grupo, com indivíduos como o próprio S. mirabilis e o S. aegyptiacus, e o Oxalaia quilombensis, da região nordeste do Brasil. Eles possuíam velas enormes no corpo, cuja função era provavelmente reprodutiva, e não para flutuar, como se imaginava, e adaptações para a dieta piscívora.
Com as mudanças ambientais ocorridas no final do Cenomaniano, incluindo o aumento do nível do mar e os novos ciclos de temperatura entre os supercontinentes, a maioria desses grandes predadores se extinguiu.
“A descoberta de S. mirabilis em uma bacia continental no Saara representa uma história continental ainda pouco conhecida para os espinossauros perto do fim de seu reinado cretácico”, afirmam os autores..