Este capítulo da nossa série Como Deus Nasceu poderia muito bem receber o subtítulo de “A Estrada rumo a Niceia” –em referência, é claro, ao grande concílio ecumênico do cristianismo primitivo que acabou de fazer aniversário de 1.700 anos (já que aconteceu no ano 325).
Provavelmente por culpa de Dan Brown, famigerado autor de “O Código Da Vinci”, o encontro em Niceia acabou assumindo proporções míticas na imaginação de muita gente. Havemos de ter um capítulo só sobre o concílio, é claro, mas é importante mostrar que o processo de construção de certo consenso sobre a natureza de Jesus já estava acontecendo muito antes nas comunidades cristãs espalhadas pelo mundo antigo. Esse é o tema deste texto.
As generalizações sempre são complicadas, ainda mais diante da documentação incompleta que chegou até nós, mas, ao que parece, quando chegamos a meados do século 3º (ou lá pelo ano 250, digamos), está se formando uma massa crítica numericamente superior de cristãos “ortodoxos”. Nosso guia aqui será o livro “Como Jesus se Tornou Deus”, de Bart Ehrman.
Com muitas aspas: não me refiro aqui às Igrejas Ortodoxas Grega, Russa e outras de hoje, mas a cristãos cujo sistema de crenças está adquirindo contornos teológicos semelhantes à visão predominante entre a maioria das denominações de hoje. (Eles já chamavam de “heréticos” os que estavam fora desse círculo, mas é claro que a definição do que seria uma crença incorreta, herética ou heterodoxa –o oposto de “ortodoxa–, é algo que depende de algum tipo de autoridade central, coisa que, no século 3º, não existia.)
A preocupação dos membros dessa ortodoxia nascente era preservar três coisas que parecem ser contraditórias: 1) a humanidade de Jesus; 2) a divindade de Jesus; 3) a unidade (ou unicidade, talvez) de Deus. Ao tentarem manter esses três fatores numa relação de tensão dinâmica entre si, sem que jamais um negue o outro, esses pensadores cristãos buscam combater algumas das ideias sobre a natureza de Cristo que vimos nos episódios recentes.
Sim, para eles, Jesus é um ser humano, mas não só um ser humano, como acreditavam alguns grupos judaico-cristãos. Jesus é Filho de Deus, e essa divindade de quem ele é filho é o Deus do Antigo Testamento, e não o misterioso Uno dos gnósticos. E sim, Jesus participa da natureza divina, mas ele não é só um ser divino que apenas aparentava ter assumido forma humana, como afirmavam outros grupos, chamados docetistas (nome que vem do verbo grego “dokêo”, “parecer”).
OK. Restava saber, porém, como a divindade de Jesus podia ser conciliada com o monoteísmo de origem judaica que os cristãos abraçaram. Por acaso eles estariam adorando a dois deuses, e não a um só? E quanto ao Espírito Santo citado ao longo de todo o Novo Testamento?
Uma das primeiras soluções adotadas para esse impasse foi o chamado modalismo, defendido por alguns bispos de Roma (os “futuros papas”) no século 3º. O modalismo enxergava a diferença entre Pai, Filho e Espírito Santo como a que existe entre alguém que é pai, formado em engenharia e judoca ao mesmo tempo, digamos –aspectos do mesmo ser essencial. O mesmo Deus Pai que criou sozinho os céus e a terra também foi aquele que sofreu na cruz e ressuscitou.
Como o Novo Testamento, porém, retrata Jesus como alguém que tem uma relação com Deus Pai que parece indicar uma diferença clara entre eles, o modalismo se tornou alvo de críticas de outros cristãos, sendo descrito, de forma irônica, como patripassianismo. Ou seja, uma crença segundo a qual Deus Pai (o prefixo “patri”) teria sofrido ele próprio a “Paixão” (“passianismo”) na cruz.
Diversos pensadores cristãos da mesma época, a começar pelo egípcio Orígenes (185-253), rejeitaram o modalismo em favor de uma visão que começaria a desembocar na ideia de Santíssima Trindade (de início chamada de “Tríade”). Desenvolve-se a ideia de que Jesus teria sido “gerado” por Deus Pai muito antes da criação do Cosmos, com status divino quase tão elevado quanto seu genitor.
A ideia, embora muito difundida, ainda assim colocava Jesus e o Espírito Santo numa posição secundária e subordinada em relação a Deus Pai. Mas será que isso não produziria uma espécie de politeísmo, no fim das contas? É esse debate o grande tema do concílio de Niceia, como veremos no próximo episódio da série.
(PS: voltando rapidamente ao finório Dan Brown, repare que a descrição que ele faz do debate em “O Código Da Vinci” é despropositada. No começo do século 4º d.C., eram muitos raros ou inexistentes os cristãos que enxergavam Jesus como apenas um profeta humano. A imensa maioria já o definia como divino. A dúvida era saber o que significava exatamente essa divindade.)