Nos últimos anos, cientistas têm dado uma repaginada no Tyrannosaurus rex. Alguns sugerem que a mandíbula cheia de dentes do dinossauro era coberta por lábios carnudos. Outros reconstruíram a fera com uma pelagem fofa de penas.
Até mesmo as pegadas estrondosas do dinossauro estão sendo reavaliadas. A análise de rastros fossilizados e da anatomia da parte inferior da perna do T. rex tem levado a uma reconstrução do modo de andar do dinossauro. As descobertas, publicadas na última quarta-feira (25) na revista Royal Society Open Science, revelam que o animal no topo da cadeia alimentar dos dinossauros andava na ponta dos pés, não muito diferente das aves modernas.
“O estudo mostra que até o icônico T. rex era bastante parecido com as aves na forma como andava”, diz o paleontólogo Steve Brusatte, da Universidade de Edimburgo (Escócia) que não participou do estudo. “Ele teria sido algo como uma galinha de oito toneladas cacarejando pelo terreiro.”
Adrian Boeye, estudante de graduação do College of the Atlantic, no Maine (Estados Unidos), que estuda biomecânica, liderou o projeto. Ele estava interessado em como o Tiranossauro rex, um animal capaz de pesar mais de dez toneladas, conseguia se mover pelo ambiente e perseguir presas.
Segundo Boeye, pesquisas anteriores que reconstruíram os movimentos do T. rex frequentemente simplificavam os pés do dinossauro. “Os pés eram tratados como blocos rígidos”, que simplesmente pisavam no chão com o calcanhar primeiro.
Esse estilo de locomoção difere dos parentes vivos do T. rex. Aves terrestres, que também são dinossauros, tocam o chão primeiro com a parte da frente dos pés. E em vez de caminhar pesadamente, elas usam passadas curtas e rápidas para correr, ajudando a reduzir o contato com o solo e permitindo uma transição suave entre caminhar e correr.
Aves maiores utilizam essas passadas curtas para alcançar velocidades muito mais rápidas —um avestruz em disparada pode atingir quase 70 km/h— do que outros corredores bípedes, como os humanos.
Para determinar se um animal muito maior como o Tyrannosaurus rex se movia como as aves modernas, Boeye e seus colegas examinaram as dimensões de pegadas fossilizadas deixadas por tiranossauros, incluindo um rastro de quase um metro de comprimento do estado americano do Novo México.
Eles também examinaram a anatomia da parte inferior da perna de vários esqueletos, incluindo um T. rex juvenil esguio e o adulto chamado Sue. A equipe teve que levar em conta a cauda musculosa do animal e calibrou seus modelos examinando os padrões de movimento das aves modernas.
Esses dados ajudaram a estimar a velocidade do dinossauro, a frequência das passadas e os padrões de pisada, medindo qual parte do pé toca o chão primeiro.
O trabalho revelou que o T. rex provavelmente tocava o chão primeiro com os dedos, como as aves modernas, e utilizava passadas curtas e mais rápidas para atingir velocidade máxima.
“Em vez de dar passos cada vez maiores, como em ‘Jurassic Park’, ele se movia rapidamente balançando as pernas com rapidez”, disse Boeye. “Seria como ser perseguido por uma ave gigante.”
Embora as estimativas de velocidade da equipe sejam consistentes com descobertas anteriores, os modelos biomecânicos confirmam que Tyrannosaurus rex de diferentes tamanhos se moviam em velocidades notavelmente diferentes.
Os jovens provavelmente alcançavam mais de 11 metros por segundo, enquanto adultos maiores como Sue atingiam no máximo seis metros por segundo, aproximadamente a velocidade de um dragão-de-komodo. A diferença pronunciada no ritmo sugere que o T. rex caçava presas diferentes conforme envelheciam.
De acordo com Thomas Carr, paleontólogo do Carthage College, em Wisconsin, que não participou do artigo, os resultados fornecem informações relevantes sobre o estilo de vida do T. rex que não podem ser deduzidas apenas de ossos fossilizados.
As novas descobertas também enfatizam quão intimamente os tiranossauros estão relacionados às aves vivas. “O modo de andar com os dedos primeiro pode ser adicionado à longa lista de características de aves que têm suas origens significativamente anteriores às origens do voo, junto com penas e fúrculas.”
Boeye e seus colegas não ficariam surpresos se dinossauros terópodes mais antigos andassem na ponta dos pés muito antes do T. rex entrar em cena. “Ver como esses dinossauros se moviam faz parte da mesma história evolutiva de como as aves começaram a correr pelo chão.”