A neblina que sobe da floresta amazônica ao amanhecer pode transportar milhares de micróbios vivos. A conclusão é de cientistas que conduziram uma análise com base em uma amostra coletada na reserva do Uatumã, a 156 km de Manaus.

Eles descreveram o achado em um artigo publicado no dia 3 de fevereiro deste ano no periódico Communications Earth and Environment. Segundo eles, esse é o primeiro registro de microrganismos vivos em gotículas de neblina na amazônia.

Foram identificadas oito espécies de bactérias e sete de fungos. Os cientistas sugerem que a neblina ajuda a dispersar microrganismos pela floresta e pode influenciar a formação de nuvens e chuvas.

A pesquisa nasceu da dissertação de mestrado de Bruna Grasielli Sebben, hoje doutoranda no Instituto Max Planck, na Alemanha.

Bruna passou muitas madrugadas em um dos pontos do Observatório de Torres Altas da Amazônia (ATTO), a 42 metros de altura, imersa na espessa neblina que envolve a copa das árvores.

“Eu ficava lá das 3h às 7h da manhã para garantir que não ia chover e danificar os equipamentos”, diz a pesquisadora, referindo-se ao aparelho que aspira a neblina e recolhe a água em um pequeno frasco.

As amostras foram submetidas a análises no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. O resultado indicou a presença de bactérias e fungos vivos, entre os quais a bactéria Serratia marcescens e o fungo Aspergillus niger.

Como muitos desses microrganismos vivem no solo e em plantas, a pergunta é como foram parar dentro das gotículas.

Ainda não se sabe. Uma hipótese é que correntes de ar que circulam na floresta levem esses microrganismos até a copa, onde a neblina se forma. Diferenças de carga elétrica ajudariam os micróbios a grudarem e serem englobados nas gotículas.

A neblina pode funcionar como um abrigo temporário. Os micróbios pegam carona nas gotículas e conseguem alcançar novas áreas da floresta. A água os protege do ressecamento e da radiação UV, mantendo-os vivos para seguir viagem, segundo o coordenador da pesquisa, o químico Ricardo Godoi, da Universidade Federal do Paraná.

Godoi lembra que, na amazônia, “uma árvore caída na floresta pode se pulverizar em dois anos”, sob a ação intensa de decompositores. A hipótese é que, ao redistribuir micróbios, a neblina possa contribuir para o ritmo frenético de renovação da floresta.

Com o nascer do sol, a neblina se desfaz e parte do que carregava fica suspenso no ar. Sais, gases, pólen e micróbios podem voltar a atrair vapor d’água e formar novas gotículas em altitudes mais altas.

“O nevoeiro age como um ‘elevador’ desses microrganismos para a atmosfera, onde podem ajudar a iniciar a formação de nuvens”, afirma o físico Heitor Evangelista, da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), coautor do estudo. “A floresta possui seu próprio mecanismo natural de produção de nuvens.”

Nem toda vida que flutua sobre a Amazônia nasce na própria floresta. Há indícios de que a poeira proveniente da África chegando pelo Atlântico também leve microrganismos à atmosfera amazônica, segundo pesquisas em andamento na Europa.

A descoberta de um ecossistema da neblina é mais uma peça do complexo ciclo da água na amazônia. Estudos indicam que a floresta pode responder por cerca de metade da chuva no bioma, e parte desse vapor segue nos “rios voadores” rumo ao centro-sul e à bacia do Prata. O fluxo ajuda a sustentar as chuvas em áreas agrícolas do Brasil e de países vizinhos.

Com menos floresta, alteram-se as condições que favorecem a formação de neblina e chuva. O desmatamento pode desorganizar esse elo discreto em um dos sistemas climáticos mais importantes do planeta.

A troca da floresta por pasto ou soja pode elevar em até 3°C a temperatura do solo e reduzir em 25% a chuva, diz o climatologista Carlos Nobre, da USP (Universidade de São Paulo), citando um recente estudo na revista Communications Earth and Environment.

Outro efeito observado é a mudança na composição do ar causada pela fumaça. A fuligem das queimadas tende a dominar a atmosfera e, ao contrário dos micróbios, retarda a formação de nuvens e chuva, ressalta José Marengo, do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

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