Um busto de mármore que esteve por séculos em uma das basílicas de Roma foi reatribuído a Michelangelo após quase 200 anos no esquecimento, graças a uma investigação baseada em documentos.

A escultura, que retrata Cristo Salvador, foi preservada na Basílica de Sant’Agnese fuori le mura, na antiga Via Nomentana de Roma, por uma ordem religiosa católica de cônegos regulares.

Originalmente atribuída a Michelangelo até o início do século 19, a obra posteriormente perdeu sua associação com o mestre renascentista e permaneceu sem autoria definida até os dias atuais.

A pesquisadora independente italiana Valentina Salerno —membro do comitê do Vaticano para as celebrações dos 500 anos do nascimento de Michelangelo— reatribuiu a escultura ao artista toscano.

“Vivemos aqui desde 1412, e o complexo monumental de Sant’Agnese sempre reserva surpresas —esta é uma delas”, disse Franco Bergamin, da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, em uma coletiva de imprensa.

A pesquisa de Salerno é baseada em um longo trabalho de arquivo, e não apenas em análise estilística, recorrendo a registros notariais, inventários póstumos e correspondências indiretas ligadas aos últimos anos de Michelangelo em Roma.

“Não sou historiadora da arte —na verdade, nem tenho diploma universitário— mas a força da minha pesquisa está em sua dependência de documentos de arquivos públicos”, disse ela, descrevendo-se como uma espécie de investigadora.

Os documentos contestam a narrativa há muito estabelecida de que Michelangelo, que viveu até os 88 anos, destruía sistematicamente obras no final da vida. Em vez disso, as fontes sugerem que desenhos, estudos e algumas esculturas de mármore foram cuidadosamente transferidos dentro de um círculo de confiança após a morte do artista.

“Na morte de Michelangelo, todo governante poderoso teria querido reivindicar algo do mestre. Mas o artista planejou cuidadosamente a transferência do material em sua posse para que sua arte pudesse ser passada a seus discípulos e, assim, às gerações futuras”, disse Salerno.

Um documento faz referência a uma sala trancada, acessível apenas com múltiplas chaves, que havia sido criada para proteger materiais valiosos. Embora a sala em si tenha sido posteriormente esvaziada, seu conteúdo pode ser rastreado por meio de transferências subsequentes.

A pesquisa descreve uma rede discreta através da qual obras sem atribuição foram transferidas para instituições religiosas e locais de armazenamento secundários, onde permaneceram integradas a ambientes funcionais em vez de entrar no mercado de arte.

O busto de Sant’Agnese parece fazer parte desse processo. Há muito integrada ao espaço litúrgico da basílica, a escultura foi preservada em um edifício moldado por séculos de reformas e acréscimos.

Os dados que surgiram formarão a base de um processo mais amplo de atribuição, com o objetivo de progressivamente devolver outras obras esquecidas às mãos de Michelangelo e apresentar as descobertas à comunidade acadêmica internacional.

A reluzente escultura branca agora está sobre um altar em uma capela lateral da basílica e é protegida por um sistema de alarme.

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