Discussões sobre uma possível federação com o PT dividiram o PSOL e isolaram politicamente a ala ligada ao ministro Guilherme Boulos (Secretaria Geral) e à deputada federal Erika Hilton (SP), defensores do arranjo eleitoral. Correntes distintas do partido afirmam que a maioria dos filiados é contra a união, que será debatida em encontro da executiva nacional neste sábado (7).

As federações somam tempo de TV e quociente eleitoral entre partidos, que atuam em conjunto nacionalmente como uma única sigla, sob um mesmo estatuto, mas mantêm nomes e números de urna próprios. Precisam ser oficializadas até abril, a seis meses da eleição, e duram quatro anos.

O encontro será virtual e ocorrerá após semanas de alfinetadas entre os psolistas nas redes sociais e exposição de argumentos distintos em diferentes frentes.

A Revolução Solidária, corrente de Boulos, Erika e da ministra Sônia Guajajara (Povos Indígenas), argumenta que a federação é necessária para dar unidade à esquerda e combater o avanço do bolsonarismo e da extrema direita no país, tendo como exemplo a Frente Ampla do Uruguai, que unificou partidos de esquerda e centro-esquerda nos anos 70.

O grupo afirma que, federado ao PT, o PSOL não precisará se preocupar com a cláusula de barreira, que impõe um mínimo de votos para que parlamentares e partidos possam assumir cadeiras na Câmara dos Deputados. O partido aproveitaria a capilaridade petista para ampliar o alcance das candidaturas psolistas no país.

“A federação é um caminho para ampliar a bancada de esquerda no Congresso num momento decisivo, já que há vários casos de lideranças que têm votos suficientes para se eleger, mas não alcançam o mandato pelas regras do quociente eleitoral”, disseram Boulos, Erika e Guajajara, junto de outras lideranças do PSOL, em artigo na Folha em fevereiro.

Atingir a cláusula de barreira garante aos partidos acesso aos recursos do Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. Para 2026, os critérios são a eleição de ao menos 13 deputados federais ou o alcance de 2,5% dos votos válidos para a Câmara. Nos dois cenários, os votos devem ser distribuídos por 9 das 27 unidades federativas.

“A extrema direita opera como bloco. O capital financeiro opera como bloco. O agronegócio opera como bloco. A direita parlamentar atua como bloco. Se a esquerda responder apenas com identidade isolada, corre o risco de falar bonito e perder feio”, escreveu o tesoureiro nacional do partido, Tiago Paraíba, no Instagram.

Na semana passada, Paraíba acompanhou a presidente do PSOL, Paula Coradi, e a deputada federal Sâmia Bomfim (SP), em uma reunião com o presidente do PT, Edinho Silva, para falar sobre a união.

Militante do MES (Movimento Esquerda Socialista), uma das correntes contrárias à federação, Sâmia afirmou à Folha que, já na eleição de 2022, o PSOL havia ultrapassado a cláusula de barreira relativa a 2026.

“O risco da cláusula sempre existe, mas não há dados que indiquem que a gente não consiga superá-la”, afirmou ela.

Federações e a cláusula

Partidos que não atingirem a cláusula de barreira, para terem acesso aos recursos do Fundo Partidário, precisam se fundir, incorporar ou federar com outras siglas.

A Primavera Socialista, grupo majoritário que preside o PSOL, divulgou uma nota nas redes sociais se opondo à federação. O grupo argumenta que a sigla seria obrigada a apresentar menos candidatos para o Legislativo, já que o limite de candidaturas é dividido entre os partidos que integram uma federação.

Hoje, o PSOL divide as vagas apenas com a Rede, com quem é federado desde 2022. Caso aceite se juntar ao PT, dividirá as candidaturas não só com os petistas, mas também com PCdoB e PV. A cúpula da Rede, em meio a disputas internas pela presidência do partido, já declarou que não seguirá com o PSOL caso a legenda se junte ao PT.

Outro argumento de psolistas contrários à federação, citado também por membros da Primavera, é que a aliança obrigaria o partido a apoiar candidaturas rechaçadas pelo partido, mas endossadas pelo PT, como a de Helder Barbalho (MDB) ao governo do Pará e de Eduardo Paes (PSD) ao governo do Rio de Janeiro.

“É uma obrigação de coligações nos estados que não tem sentido para a nossa história e o nosso programa”, afirmou a deputada Fernanda Melchionna (RS), integrante do MES, à Folha.

Apoio a Lula

Ligada à Revolução So lidária, a deputada estadual Ediane Maria (SP) afirmou à reportagem que fortalecer a aliança com o PT “é uma maneira de mantermos o legado do presidente Lula e, principalmente, tirar qualquer chance de a extrema direita se alastrar ainda mais nas Casas Legislativas do país”.

O deputado federal Chico Alencar (RJ), que não integra nenhuma ala interna, escreveu nas redes sociais que o PSOL, mesmo apresentando candidaturas presidenciais próprias entre 2010 e 2018, nunca deixou de votar com o PT no segundo turno.

Ele é um dos quadros históricos do partido e integra a leva de ex-petistas que fundaram o PSOL após insatisfação com os rumos do governo Lula em seu primeiro mandato (2003-2006). Assinou artigo nesta quinta (5), na Folha, defendendo que a legenda não aceite o convite para a federação.

“No sentido de preservar essa independência política, participaremos da coligação presidencial [de 2026], mas temos uma opinião contrária a federar com o PT”, diz trecho do texto, afirmando que os partidos possuem “papéis complementares”.

Também se manifestaram contra a união outros dissidentes históricos do PT, como Luiza Erundina (SP), Luciana Genro (RS) e Ivan Valente (SP).

Futuro político

Uma liderança ouvida pela Folha afirmou sob reserva que os debates internos têm mostrado uma nova configuração das alas do partido. Antes ligada ao grupo majoritário, a Revolução Solidária tem defendido a federação de forma isolada, enquanto o MES, que muitas vezes atua em oposição à maioria, uniu-se a outras correntes contra a federação.

Parte dessa configuração, segundo essa liderança, é fruto do incômodo de alguns quadros com a proximidade entre Boulos e Lula, o que teria motivado membros da Revolução Solidária a deixarem a corrente após a defesa da federação.

Integrantes da Primavera admitem que, sem a obrigação de apoiar candidaturas como as de Paes e Barbalho, a federação seria mais aceita, e defendem que o debate seja retomado no próximo ano, em vez de encerrado de vez neste sábado.

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