Cientistas e outros especialistas estavam preparando uma avaliação inédita sobre a saúde da natureza nos Estados Unidos quando o presidente Donald Trump retornou à Casa Branca.
Ele cancelou o relatório.
Os pesquisadores seguiram em frente e o compilaram por conta própria. Nesta semana, divulgaram um rascunho de 868 páginas para comentários públicos e revisão científica.
Muitas das conclusões preliminares são sombrias: ecossistemas de água doce em todo o país estão em crise, “superexplorados, poluídos, fragmentados e invadidos”. Ecossistemas marinhos e terrestres estão degradados, com biodiversidade reduzida. Estima-se que 34% das espécies de plantas e 40% das espécies de animais estejam em risco de extinção.
As pressões humanas sobre a natureza estão corroendo os recursos essenciais que ela nos fornece, como água limpa, alimentos, saúde, meios de subsistência e proteção contra tempestades e incêndios. Mas há esperança, e os autores enfatizaram a capacidade de traçar um novo rumo.
“O futuro não está definido”, disse Phillip Levin, que dirigiu a avaliação tanto sob o governo quanto depois. “Conservação, restauração e conexões renovadas entre pessoas e natureza podem melhorar a saúde dos ecossistemas e fortalecer a resiliência das comunidades.”
O nome do relatório mudou de “Avaliação Nacional da Natureza” para “Registro da Natureza”, para refletir que se trata de um novo esforço independente, mas ele se baseia em trabalhos que já estavam em andamento, e a maioria dos autores permanece a mesma. Sua revisão científica será conduzida pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina, a mesma organização que teria revisado o relatório caso ele permanecesse sob os auspícios do governo federal.
Os dois primeiros capítulos que resumirão o extenso trabalho ainda não foram escritos, porque os autores estão aguardando esta rodada de comentários. Mas outros 13 capítulos já estão prontos.
O relatório explora não apenas ações que prejudicam a natureza, mas também como as pessoas são afetadas pela natureza e sua perda, com capítulos sobre saúde humana, economia e segurança nacional. E, ao longo de todo o documento, o trabalho destaca soluções e a capacidade da natureza de se recuperar quando tem oportunidade.
O esforço inicial começou de fato no Dia da Terra de 2022, quando o então presidente Joe Biden assinou um decreto solicitando uma avaliação da condição da natureza nos Estados Unidos. Em janeiro de 2025, com os autores a poucas semanas de entregar um primeiro rascunho completo, o governo Trump encerrou o projeto.
Mas Levin, que deixou seu cargo no governo com a mudança de administração, continuou o trabalho ao lado de cerca de 125 pesquisadores que não eram funcionários federais.
“A primeira coisa que tivemos que fazer foi conseguir financiamento”, disse Levin.
Praticamente todos os autores já estavam trabalhando voluntariamente. Mas o grupo precisava recontratar funcionários administrativos, garantir suporte técnico e pagar pela revisão das Academias Nacionais. O grupo arrecadou mais de US$ 3 milhões, principalmente de fundações, contou Levin.
“Isso apenas reafirmou, de forma muito visceral, a importância do trabalho”, acrescentou.
Desde o início, a missão da avaliação era sintetizar pesquisas existentes, e portanto suas conclusões individuais não são novas. Em vez disso, ela pretende fornecer um consenso científico pelo qual formuladores de políticas e o público possam tomar decisões informadas.
“Ter uma imagem clara de onde a natureza está, qual é sua condição e trajetória vai ajudar as pessoas a gerenciar sua relação com a natureza”, disse Kyle McKay, engenheiro civil que atuou no comitê diretor original do relatório como representante do Departamento de Defesa.
Depois que a avaliação migrou para o setor privado, McKay também migrou e continuou trabalhando nela.
A Casa Branca não respondeu diretamente às perguntas sobre a avaliação nem disse se o governo leria e comentaria o documento. Mas Kush Desai, porta-voz, escreveu em um e-mail: “Os esforços do governo Trump para cortar o financiamento do contribuinte em desperdício, fraude e abuso em gastos com subsídios —incluindo projetos ideológicos de estimação— estão apenas fortalecendo o que impulsionou a dominância americana em pesquisa e desenvolvimento”.
Temas de equidade e justiça ambiental, que eram valorizados por Biden mas ridicularizados por Trump, permeiam o relatório.
Além de cancelar o relatório sobre a natureza, o governo Trump mirou nas avaliações nacionais sobre o clima, que são determinadas pelo Congresso e vêm sendo publicadas desde 2000. Ele demitiu os autores e divulgou um relatório separado do Departamento de Energia que minimizava a ameaça das mudanças climáticas. Cientistas condenaram aquele relatório e, em janeiro, um juiz determinou que a forma como o governo o encomendou havia violado a lei.
Katharine Hayhoe, autora de avaliações nacionais sobre o clima sob governos republicanos e democratas e cientista-chefe da Nature Conservancy, não estava formalmente envolvida com o “Registro da Natureza”, mas atuou como consultora ocasional.
Ela elogiou seu rigor e inovação.
“Eu amo que o capítulo nº 4 seja ‘Pontos Positivos na Natureza'”, disse ela. “Começar pelos pontos positivos antes de chegar a toda a desgraça e tristeza na verdade ajuda a imunizar os leitores contra a mentalidade de ‘Meu Deus, acabou tudo, é melhor desistir’ que poderia surgir se você mergulhasse imediatamente nos desafios que nos confrontam.”
O relatório está aberto para comentários públicos até 30 de maio. A versão final está prevista para publicação no final do outono (no hemisfério norte).