Seria o fim da fama de pacifismo dos bonobos, os “macacos hippies”? Uma nova pesquisa, que comparou o comportamento desses grandes símios com o de seus parentes mais próximos, os chimpanzés-comuns, indica que os níveis de agressividade de ambas as espécies seriam mais ou menos os mesmos. A única grande diferença seria o fato de que, entre os bonobos, as fêmeas conseguem distribuir bordoadas entre os machos, o que seria impensável nos grupos de chimpanzés.

É verdade que as conclusões, publicadas na última quarta-feira (11) na revista especializada Science Advances, incluem algumas ressalvas. A mais importante delas é que o estudo, coordenado por pesquisadores da Bélgica e da Alemanha, foi feito apenas com grupos de ambas as espécies que vivem em cativeiro. Isso faz com que os dados não incluam uma das características mais assustadoras (do ponto de vista humano, pelo menos) dos bandos de chimpanzés-comuns na natureza: as “guerras” ou chacinas nas quais eles podem matar membros de grupos rivais.

Até agora, nada do tipo chegou a ser observado entre bonobos, mas os resultados da pesquisa sugerem que pode ser apenas questão de tempo até que algo assim seja flagrado, diz uma das coordenadoras do estudo, Nicky Staes, da Universidade de Antuérpia e da Real Sociedade Zoológica belga.

A pesquisadora e seus colegas compararam dados sobre comportamento agressivo de 22 grupos de ambas as espécies, num total de 189 animais (101 chimpanzés e 88 bonobos) que viviam em zoológicos europeus entre os anos de 2011 e 2024.

Os cientistas também conduziram suas análises levando em conta a idade dos bichos, separando as informações sobre agressividade nos animais com mais de 7 anos e mais de 12 anos de idade, levando em conta o fato de que esse tipo de comportamento não é a mesma coisa em filhotes e em símios sexualmente maduros, e também que a violência direcionada aos macacos imaturos não é propriamente a mesma que ocorre entre adultos.

Outro problema metodológico envolve a própria definição de comportamento agressivo. Nesse ponto, a análise incluiu tanto ações mais amplas com características claramente agressivas –como avançar rapidamente contra um colega de grupo, por exemplo, ou fazer um “display” ou “demonstração” hostil, batendo em objetos e emitindo vocalizações assustadoras– quanto agressões propriamente ditas —mordidas, tapas, chutes, pisoteamentos ou agarrões, entre outras. Tecnicamente, essas foram designadas como “agressões de contato” no estudo.

Nesse segundo caso, não houve uma tentativa de diferenciar agressões diretas mais ou menos severas. “Seria informativo ter algum tipo de medida dessa severidade, mas é algo bastante desafiador de interpretar quando você é o observador”, explica Staes.

“Essas interações são muito rápidas, muitas vezes envolvem mais do que só dois indivíduos e podem ou não incluir momentos intensos de luta, nos quais é difícil distinguir dentes de mãos”, conta ela. “Depois, às vezes conseguimos ver o dano causado quando os animais começam a lamber suas feridas, mas nem todas as interações ‘severas’ envolvem ferimentos abertos –certas formas de dano interno são invisíveis para nós, mas podem ter um bocado de impacto para o bem-estar deles.”

Segundo ela, nenhum dos conflitos observados no estudo levou à morte de algum dos símios, embora existam registros raros disso em zoológicos.

Os dados brutos mostraram um total de 1.368 casos de agressão dentro dos grupos de bonobos e 1.875 nos de chimpanzés, dos quais 456 e 737 casos, respectivamente, foram de “agressão de contato” (os números se referem aos indivíduos com mais de 7 anos de idade).

A simples comparação numérica passa a impressão de um predomínio considerável, ainda que não esmagador, da agressividade entre chimpanzés. Mas, levando em conta o fato de que o número de bonobos na amostra é menor, as análises conduzidas pelos pesquisadores indicam que não há diferenças significativas entre as espécies do ponto de vista estatístico.

Essa afirmação, vale ressaltar, diz respeito às interações agressivas como um todo, olhando para os grupos combinados. No entanto, há diferenças estatísticas significativas na agressão por sexo: entre bonobos, fêmeas agridem machos com mais frequência, proporcionalmente, enquanto o padrão dos chimpanzés é exatamente o oposto. A agressividade entre machos de ambas as espécies não difere tanto.

Tudo isso faz um bocado de sentido quando se considera a estrutura social de cada tipo de símio. Entre bonobos, as fêmeas ocupam o topo da hierarquia, e a posição de machos na pirâmide muitas vezes depende do papel de suas mães. No caso dos chimpanzés, alianças entre machos definem a superioridade política, e as fêmeas estão todas subordinadas a eles, embora também possam ter alguma influência política ao se aliar estrategicamente com certos machos.

Além disso, os pesquisadores identificaram grande variabilidade entre os grupos. Dos 3 grupos mais agressivos da amostra, 2 são de bonobos e 1 de chimpanzés, enquanto os 3 menos agressivos incluem, de novo, 2 de bonobos e 1 de chimpanzés.

Para Nicky Staes, de fato, essas diferenças acabam se refletindo na falta de relatos sobre “guerras” de bonobos na natureza, em parte por causa do papel das fêmeas.

“No caso dos bonobos, os machos são controlados pelas coalizações femininas, e as fêmeas têm muito pouco incentivo para atacar outras fêmeas. Entre os chimpanzés, os machos ganham o benefício direto de aumento do sucesso reprodutivo quando eliminam a competição. Acredito que os bonobos machos fariam a mesma coisa se tivessem essa oportunidade.”

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