Admiro os gatos domésticos do mesmo modo que admiro onças, tigres e demais parentes de grande porte dos bichanos: à distância, com certo misto de temor e reverência, conforme convém tratar aqueles que já foram divindades.

Jamais fui tutor de felinos e não creio que serei algum dia, mas, diante da oportunidade de ler um livro inteiramente dedicado à biologia deles, não pensei duas vezes. Devorei em poucas semanas “The Age of Cats” (“A Era dos Gatos”), do americano Jonathan Losos, e acabei descobrindo que a história recente das raças domésticas da espécie é muito mais intrigante do que eu imaginava, além de iluminar um dos fenômenos fundamentais da evolução dos seres vivos: como as espécies surgem, a chamada especiação.

A informação talvez pareça demasiado grandiosa, principalmente porque ela deriva de algo que, para “gateiros” mais bem informados do que eu, deve parecer banal: algumas raças muito cobiçadas de bichanos surgiram a partir do cruzamento de animais domésticos com espécies de selvagens de felinos.

Não admira que certas pessoas estejam dispostas a pagar uma fábula para ter representantes dessas raças em casa, porque os bichos são realmente lindos. O padrão de pintas negras sob um fundo amarelado e castanho da raça Bengal, ou “gato-de-bengala”, deve passar a sensação de que você tem uma oncinha em casa —resultado dos genes herdados do gato-leopardo (Prionailurus bengalensis), uma espécie asiática. Mais discreto, mas não menos charmoso, o Savannah tem o porte longilíneo, as longas orelhas e as manchas do serval (Leptailurus serval), seu tataravô africano. E há outros exemplos, envolvendo uma lista mais ampla de espécies selvagens.

Quem ainda enxerga a diferença entre espécies como um abismo quase intransponível talvez fique incrédulo ao saber da existência desses bichos. Visões antiquadas sobre o tema levariam muita gente a acreditar que o cruzamento entre animais de duas espécies distintas, ainda que próximas, só poderia produzir híbridos completamente estéreis, como as mulas e os burros, gerados pela união de cavalos e jumentos.

Acontece que a esterilidade também rondou a origem dos gatos Bengal e Savannah na segunda metade do século 20. O interessante, porém, é que se tratava de uma esterilidade parcial, influenciada pelo sexo do filhote híbrido.

Na chamada F1 (a primeira geração pós-hibridização), as fêmeas continuavam capazes de gerar filhotes, mas os machos eram estéreis. O sexo masculino dos gatos Savannah, por exemplo, só retoma sua fertilidade na F5, quatro gerações mais tarde (ao longo dessas gerações, as fêmeas continuam sendo cruzadas com gatos domésticos), e o cenário é mais ou menos o mesmo nas demais raças de origem parecida.

Isso deixa claro que a separação evolutiva entre espécies não é uma chave do tipo “tudo ou nada”, mas um processo gradual ao longo do tempo. E híbridos que ocorrem na natureza também apresentam, muitas vezes, a mesma separação entre fêmeas férteis e machos inférteis —embora o mecanismo exato por trás disso ainda esteja sendo investigado.

Aliás, estudos sobre a “mestiçagem” entre a nossa espécie e nossos primos extintos, os neandertais, indicam que algo assim pode ter acontecido também conosco. Pelo visto, os bichanos, apesar de sua eterna pose, não são tão diferentes de nós, afinal de contas.

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