Retomamos nossa série Como Deus Nasceu analisando as controvérsias teológicas cristãs dos dois últimos séculos da Antiguidade. Tal como os Césares de outrora, estou cedendo à aclamação popular e prosseguindo com o tema, conforme a quase unanimidade dos leitores nos comentários da coluna.

No episódio anterior, vimos como a Igreja do começo do século 4º a.C. definiu elementos importantes da profissão de fé ainda em vigor hoje durante o Concílio de Niceia. A reunião de bispos, porém, não foi epílogo, mas prólogo. O arianismo, derrotado em Niceia por ensinar que a divindade de Jesus surgira depois da de Deus Pai e era inferior à d’Ele, não desapareceu, mas apenas submergiu por alguns anos.

Tanto é assim que um simpatizante do arianismo, o bispo Eusébio de Nicomédia, foi o responsável por batizar Constantino, o primeiro imperador romano cristão, em seu leito de morte no ano 337 (apenas 12 anos depois do concílio, portanto).

A influência de correntes arianas ou semiarianas só cresceu no governo imperial nas décadas seguintes –houve ainda um breve interlúdio de restauração pagã sob o governo do imperador Juliano (que reinou de 361 a 363), cognominado “o Apóstata” por ter rejeitado sua criação cristã. Ao mesmo tempo, porém, a corrente que continuava a defender a profissão de fé de Niceia buscava resistir em diversas dioceses do Império Romano.

A posição que vertentes que tentavam transcender tanto o arianismo quanto a fé hoje chamada de ortodoxa acabariam assumindo com força nessa época parece um trocadilho com a do Credo de Niceia. Lembre-se de que, naquele concílio, prevaleceu a ideia de que Jesus era “homoússios”, ou seja, da mesma substância ou essência que seu eterno Pai. Mas os “pós-arianos”, se é que podemos chamá-los assim, preferiam o termo “homoiússios” –sim, a diferença é de um único “i”, ou “iota”, em grego! O sentido da mudança é que Jesus seria de substância ou essência similar, mas não idêntica à de Deus.

E havia ainda debates sobre o status do Espírito Santo, visto pela maioria dos cristãos hoje como a Terceira Pessoa divina da Santíssima Trindade. O grupo designado por seus adversários como “Pneumatomákhoi” (“os que lutam contra o Espírito”) não via o Espírito Santo como uma Pessoa divina em pé de igualdade com o Pai e o Filho.

A reafirmação do Credo de Niceia parecia improvável antes da chegada ao poder de Teodósio 1º, inimigo declarado do arianismo e das vertentes semelhantes a ele. Seguindo o exemplo de Constantino, o novo imperador romano convocou seu próprio grande concílio, desta vez em Constantinopla, a capital do Oriente romano construída justamente pelo primeiro monarca cristão.

Celebrado no ano 381, o Concílio de Constantinopla reafirmou as decisões de Niceia, pondo fim ao arianismo e vertentes similares como uma opção válida para os cristãos sob domínio romano (embora diversos povos germânicos recém-convertidos à fé em Cristo, mais tarde invasores do próprio Império, continuassem arianos durante alguns séculos).

Os “Pneumatomákhoi” também foram derrotados –segundo a tradição, teria sido nesse momento que o Credo teria incorporado a frase “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: ele que falou pelos profetas”.

Mas ainda estavam por vir duas controvérsias cruciais, que enfraqueceriam essa unidade cristã, conquistada a tão duras penas, em torno do Credo Niceno-Constantinopolitano. Esse será o tema do próximo texto, o último sobre a evolução de Deus no pensamento cristão. Até lá!

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