Acho reconfortador, uma fonte de encanto interminável, saber que outros animais possuem uma mente que não é tão distinta assim da minha e da sua. Essa ficha volta a cair na minha cabeça dura toda vez que vejo um cachorro sonhando no calor da tarde, ou quando os cientistas encaixam mais uma pecinha no quebra-cabeças da complexidade comportamental de outras espécies. Eis a mais recente a me deixar boquiaberto: a “sala de parto” dos cachalotes do Caribe.
A descrição das cenas de dedicação explícita de todo um grupo para com uma fêmea parturiente e seu bebê ganhou, ao mesmo tempo, as páginas de dois periódicos acadêmicos, a Science e a Scientific Reports, nesta semana, e não é para menos. Afinal, das quase 100 espécies de cetáceos (o grupo das baleias e golfinhos) que ainda existem nas águas do planeta, apenas 9 tiveram seu nascimento devidamente observado na natureza até hoje, e esse tipo de registro científico só tinha sido feito uma única vez no caso dos cachalotes (Physeter macrocephalus), os maiores cetáceos com dentes.
Acontece que, em 8 de julho de 2023, nas águas da ilha de Dominica, nas Antilhas, surgiu a oportunidade de observar o nascimento de um dos gigantes pela primeira vez em décadas. (Quando digo “gigantes”, não se trata de força de expressão: os filhotões da espécie já chegam ao mundo com 4 metros de comprimento.) A equipe liderada por Alaa Maalouf, da Universidade de Haifa, e Shane Gero e David Gruber, do Projeto Ceti, já conhecia bastante bem o grupo designado como Unidade A, formado por 11 cachalotes, quando perceberam que algo diferente estava para acontecer.
Os animais que pertencem à Unidade A são membros de duas “matrilinhagens” diferentes, ou seja, descendem de duas ancestrais distintas pelo lado materno. Em condições normais –quando mergulham fundo em busca de alimento, por exemplo–, essas baleias preferem quase sempre a companhia de cachalotes da mesma matrilinhagem que elas.
Não foi o que aconteceu, porém, naquele dia de verão do hemisfério Norte. Os pesquisadores não sabem ao certo quando começou o trabalho de parto da cachalote que apelidaram de Rounder, mas o fato é que, meia hora após todo o bando emergir, às 11h12, eles flagraram a ponta da nadadeira caudal do filhote saindo do canal vaginal da mãe. As demais fêmeas do bando, enquanto isso, mergulhavam embaixo de Rounder, inclusive de barriga para cima, para poder enxergar melhor a saída do bebê.
Meia hora depois, o parto estava completo, e foi aí que a magia aconteceu. Independentemente do parentesco com Rounder, todos os membros da Unidade A passaram a se revezar para erguer o recém-nascido acima do nível da água –em alguns casos, o filhote chegava a ficar “de cavalinho” no lombo dos bichos adultos. E isso durante pelo menos uma hora após o parto.
A manobra é indispensável porque os bebês cachalotes afundariam e morreriam afogados nas primeiras horas de vida sem essa ajuda –ainda não sabem boiar, e a nadadeira caudal fica “dobrada”, sem força propulsora, logo após o nascimento.
As vocalizações do grupo gravadas pelos cientistas nesse momento também são peculiares. Não consigo deixar de imaginar uma conversa do tipo: “Isso, agora levante um pouco! Mais para a esquerda! Ôpa, que bom, o bebê está respirando bem”. Vivemos num mundo imenso, senhoras e senhores.