Mais de meio século depois de os Estados Unidos terem colocado seres humanos na Lua, o país está novamente envolvido em uma corrida espacial. Desta vez, com a China.

Nesta quarta (1º), a Nasa enviou astronautas em uma jornada para um sobrevoo lunar, um marco rumo a ambições ainda maiores. Tanto os americanos quanto os chineses querem estabelecer bases ao redor do polo sul lunar e esperam explorar água congelada, hidrogênio e hélio na região. Ambos também planejam construir reatores nucleares para abastecer bases lunares a partir das quais poderão lançar missões para o espaço profundo.

É uma nova fronteira, e quem chegar primeiro terá grande influência na definição das regras.

O programa Artemis tem enfrentado alguns obstáculos. Os EUA querem voltar à Lua até 2028, dois anos antes da meta da China, mas até a própria Nasa reconhece que pode não vencer.

“Eles podem chegar antes”, afirmou o administrador da agência americana, Jared Isaacman, na semana passada. “E a história recente sugere que podemos nos atrasar.”

A China mantém suas ambições lunares com um foco singular e formidável. Seu programa tem várias vantagens em relação ao dos rivais americanos.

Especialistas afirmam que a vantagem da China está no controle centralizado, que permite planejar e financiar projetos por décadas a fio. Suas missões espaciais robóticas, por exemplo, já foram aonde os EUA não chegaram.

A China é a única nação a pousar e coletar amostras do lado afastado da Lua, o hemisfério que está sempre voltado para o lado oposto da Terra. A sétima missão robótica chinesa, a Chang’e 7, vai explorar o polo sul lunar e está prevista para este ano.

Ajuda o fato de que a ambição imediata do país asiático é mais modesta. Os astronautas chineses planejam pousar no lado próximo da Lua, relativamente mais acessível. Foi ali que Neil Armstrong deu “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade” em 1969.

Os americanos estão mirando o polo sul da Lua.

Uma reformulação recente do programa pode acelerar o Artemis. O novo plano inclui mais lançamentos para testar componentes, ganhar confiança e reduzir riscos, segundo Isaacman. Após o retorno de astronautas à Lua, a Nasa pretende lançar missões a cada seis meses e manter uma presença permanente lá.

“Desta vez, o objetivo não é bandeiras e pegadas”, afirmou Isaacman. “Desta vez, o objetivo é ficar.”

A China está perseguindo objetivos semelhantes por meio de dois programas que provavelmente serão unificados: missões tripuladas sob a supervisão militar e missões robóticas civis.

Ambos os programas dependem de componentes construídos principalmente pela China Aerospace Science and Technology Corp., uma empresa que combina expertise industrial e militar. Isso significa que eles compartilham tecnologias-chave.

A Nasa depende mais de fornecedores privados.

Yuqi Qian, geólogo lunar da Universidade de Hong Kong que trabalha nas missões lunares da China, disse que, como a primeira missão tripulada chinesa quer percorrer parte do mesmo terreno já explorado pelas missões Apollo há muito tempo, os cientistas têm mais liberdade para experimentar.

Os programas de exploração chineses continuarão avançando em um ritmo estabelecido anos atrás, independentemente do que o Artemis fizer, afirmou ele.

“Na verdade, não há pressão do lado chinês”, continuou Qian. “Estamos fazendo isso com mais liberdade.”

“Não acho que a China veja isso como uma corrida”, acrescentou.

O foguete

A China planeja usar um foguete construído pelo governo, o Longa Marcha 10, para o pouso na Lua. Ele tem aproximadamente a altura de um prédio de 30 andares e possui sete motores em sua base, a parte conhecida como primeiro estágio.

Nos testes iniciais, cientistas chineses acionaram os motores do foguete enquanto ele estava preso. Depois, em fevereiro, eles acionaram 5 dos 7 motores e lançaram o primeiro estágio a uma altura de pouco mais de 100 quilômetros.

Ele caiu no mar, onde os cientistas o recuperaram.

A China está atrás dos EUA em tecnologia de foguetes, uma defasagem que tem atrasado sua tentativa de competir com a rede de satélites Starlink, da SpaceX, em órbita terrestre baixa. Os chineses não dispõem de um foguete reutilizável que se equipare ao Falcon 9 da empresa de Elon Musk.

Partes do Longa Marcha 10 podem vir a se tornar reutilizáveis, porém isso importa menos para missões lunares, que são menos frequentes do que lançamentos para colocar satélites em órbita.

O lançador americano, o SLS (Space Launch System), representa uma melhoria significativa em relação ao sistema que enviou astronautas à Lua no programa Apollo. É um foguete potente e complexo, montado a partir de componentes fabricados pela Nasa e por múltiplos contratantes.

O SLS não foi usado muitas vezes, mas nesta quarta-feira (1º) decolou para sua primeira missão tripulada sob um céu azul e limpo. Foi uma grande vitória para a Nasa, e espera-se que lançamentos mais frequentes resultem na solução de eventuais problemas.

A espaçonave

A China está desenvolvendo uma nova espaçonave chamada Mengzhou, ou barco dos sonhos, que pode transportar até sete astronautas. Ela foi projetada tanto para missões lunares quanto para viagens à estação espacial chinesa, a Tiangong, a cerca de 450 quilômetros acima da Terra.

A espaçonave levará astronautas até uma órbita lunar. Uma vez lá, ela fará o encontro com um módulo de pouso que levará os astronautas à superfície da Lua. A China planeja realizar a missão lunar com dois lançamentos, em parte porque não possui um foguete grande o suficiente.

A China testará a capacidade da Mengzhou de se encontrar e acoplar à estação espacial chinesa ainda neste ano. Encontros orbitais semelhantes já foram testados em missões robóticas à Lua.

A Mengzhou passou em seu teste mais recente, em fevereiro, quando demonstrou sua capacidade de abortar nos primeiros minutos de um lançamento. A espaçonave se desacoplou com sucesso de um foguete sob condições de pressão máxima, de acordo com a mídia estatal.

A espaçonave americana, Orion, foi testada pela primeira vez em 2014 e está mais avançada em seu desenvolvimento. A Orion transporta os quatro astronautas na Artemis 2. A Nasa testará seus sistemas de suporte à vida e controle ambiental durante a missão.

O módulo de pouso

A versão chinesa do módulo de pouso lunar, chamada Lanyue (abraçando a Lua), incorpora décadas de aprimoramentos.

De acordo com o projeto da missão, depois que os astronautas embarcarem em órbita, o módulo de pouso seguirá para a superfície lunar. Lá, servirá como residência temporária, centro de dados e fonte de energia para a tripulação.

Para o retorno dos astronautas, o módulo de pouso decolará e se encontrará com a espaçonave na órbita da Lua.

A China testou um protótipo em agosto, navegando em uma superfície construída para imitar as crateras e irregularidades da Lua.

Os EUA ainda não têm um módulo de pouso, em parte devido à complexidade da missão planejada. A SpaceX está desenvolvendo sua versão, a Starship, e fará um novo teste neste mês. A Blue Origin está trabalhando em outro módulo de pouso.

A Nasa planeja lançar a Artemis 3 no próximo ano para testar a operação dos módulos de pouso mais perto da Terra. A agência seguirá com o módulo que estiver pronto primeiro, de acordo com Lori Glaze, da Nasa.

Os trajes espaciais

Os astronautas chineses usarão trajes espaciais chamados Wangyu (contemplando o Cosmos), em suas caminhadas espaciais.

Os trajes serão versões mais compactas dos utilizados na estação espacial chinesa. Terão uma viseira antirreflexo, uma câmera em cada lado do capacete e um console de controle no peito.

O design fará referência a armaduras tradicionais para fazer os astronautas parecerem mais vigorosos e imponentes, segundo a declaração de um funcionário à mídia estatal. Os trajes espaciais devem passar por mais testes ainda neste ano.

Os Estados Unidos vão aprimorar seus trajes para torná-los mais flexíveis e oferecer maior proteção no ambiente hostil da Lua. A Nasa contratou trajes espaciais capazes de dar suporte aos astronautas por até oito horas fora de seus veículos.

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