Aos 12 anos, Naia Butler-Craig decidiu que queria ser astronauta. Cada vez que entrava na Igreja AME St. Mark, na cidade de Orlando, na Flórida (EUA), e via a foto emoldurada de Mae Jemison, a primeira mulher negra a viajar ao espaço, ela sabia que o espaço era seu objetivo final.

Dezesseis nos depois, já como engenheira aeroespacial da Nasa com doutorado na mesma área, ela apertou a mão de Victor Glover, o primeiro homem negro que pilotaria uma espaçonave ao redor da Lua, e disse a ele que estava seguindo seus passos.

“A maioria das pessoas se preocupa em fazer a escolha certa”, relembrou Butler-Craig sobre a resposta de Glover em 17 de janeiro deste ano. “Faça a escolha dar certo.”

Quase três meses depois, Glover, 49, foi lançado ao espaço, tornando-se 1 das 4 pessoas a viajar mais longe da Terra do que qualquer ser humano na história, como parte da missão Artemis 2, da Nasa, para contornar o satélite natural da Terra.

Para Butler-Craig, foi uma confirmação de que são possíveis não só o seu caminho mas também as aspirações de milhões de americanos negros que um dia foram impedidos de acessar os mais altos escalões das conquistas acadêmicas e humanas por causa da cor de sua pele. “Isso me faz sentir que ele pavimentou o caminho para alguém como eu.”

O CÉU NÃO É O LIMITE

Enquanto o governo de Donald Trump trabalha para desmantelar programas de diversidade, equidade e inclusão em órgãos governamentais e no setor privado, o voo histórico de Glover gerou uma onda de apoio nas redes sociais. Muitos citaram seu poder simbólico e peso histórico em uma longa trajetória de conquistas negras na aviação e na exploração espacial —e a prova de que nem mesmo o céu é o limite.

“É uma fonte de orgulho e alegria porque, quando você olha para o setor aeroespacial e a exploração espacial, sim, temos alguma representatividade, mas não temos representatividade suficiente”, disse Tennesse Garvey, piloto de Boeing 777 da United Airlines.

Garvey preside o conselho de diretores da Organization of Black Aerospace Professionals, uma entidade sem fins lucrativos que treina e incentiva minorias a seguir carreiras no setor aeroespacial e na aviação desde 1976. Duas das filhas de Glover participaram do primeiro programa de academia espacial de uma semana da organização em Houston quando eram mais novas, segundo Garvey.

“É realmente inspirador para muitas outras crianças que têm esse sonho”, acrescentou ele.

Glover está entre os 20 astronautas negros selecionados pela Nasa desde que sua primeira turma de sete astronautas do programa Mercury foi anunciada em 1959, representando cerca de 6% de todos os astronautas que a agência escolheu.

Primeiro entre os primeiros

Antes da viagem lunar, Glover havia passado quase cinco meses e meio em órbita, começando em 2020 como piloto da missão Crew-1, da Nasa. Foi a primeira missão operacional à Estação Espacial Internacional usando a cápsula Crew Dragon, da SpaceX.

Antes de ingressar na Nasa, ele pilotou mais de 40 aeronaves durante sua carreira na Marinha dos EUA, incluindo missões de combate no Iraque. Ao longo da carreira, acumulou cerca de 3.000 horas de voo e completou mais de 400 pousos em porta-aviões e 24 missões de combate.

Mas, mesmo sendo o primeiro entre os primeiros, Glover, antes do lançamento da Artemis 2, disse: “Também espero que estejamos avançando na outra direção, que um dia não precisemos mais falar sobre esses pioneirismos”.

O astronauta segue o legado de aviadores negros anteriores, como o tenente-coronel John William Mosley Jr., membro dos célebres Tuskegee Airmen, uma unidade militar que ajudou a abrir caminho para os americanos negros na aviação militar dos EUA.

“Estamos todos sobre os ombros da geração anterior”, disse William Eric Mosley, filho de John e ex-piloto da United Airlines. “No meu caso, e acredito que também no caso do capitão Glover, ele pensaria o mesmo.”

Glover e os demais três astronautas da Artemis 2 pousaram na sexta-feira (10) no oceano Pacífico, na costa de San Diego, completando a primeira missão tripulada à Lua neste século.

Enquanto aguardava o retorno seguro da tripulação à Terra, Butler-Craig disse que recitaria o versículo bíblico tatuado em seu braço, de Tiago 1:12. “Bem-aventurado aquele que persevera na provação, porque, tendo sido aprovado, receberá a coroa da vida.”

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