Teré, com efeito, pertence a uma espécie tão estranha que parece saída da ficção científica: um mamífero que leva vida de formiga. Refiro-me aos ratos-toupeiras-pelados (Heterocephalus glaber), roedores de até 10 cm de comprimento cujo habitat natural é o subsolo de países como a Etiópia, a Somália e o Quênia.

O “regime monárquico” e a comparação com as formigas se explicam pelo fato de que esses bichos, além de construírem ninhos subterrâneos, costumam delegar toda a atividade reprodutiva a uma única fêmea, chamada, é claro, de rainha.

Ela pode se acasalar com algo entre um e três machos, e todos os demais membros da colônia são seus filhos e filhas celibatários, dedicando-se a tarefas como segurança, limpeza e cuidado com os bebês. Até onde se sabia, os únicos jeitos de algum dos rebentos da rainha iniciar sua própria carreira reprodutiva eram 1)dispersão (indo embora e fundando um novo ninho) ou 2)”golpes de Estado” sanguinolentos.

Mas será que a sociedade dos ratos-toupeiras-pelados não poderia achar saídas mais tranquilas para os dilemas do poder? A resposta afirmativa vem de um estudo publicado nesta semana na revista especializada Science Advances por Janelle Ayres e seus colegas do Instituto Salk de Estudos Biológicos, na Califórnia.

Ayres e companhia contam que o reinado de Teré começou em 17 de julho de 2019. Foi quando ela e um macho de nome Paquíto (sério… e é com acento mesmo) foram usados como fundadores da colônia em cativeiro Amigos, junto com sua primeira ninhada.

Dessa primeira leva de filhotes, três fêmeas e um macho sobreviveram. Teré, uma mãezona, foi gerando mais e mais bebês, a intervalos médios de 80 dias, até que, em 5 de agosto de 2020, a colônia alcançou a marca de 39 habitantes. Depois disso, ela continuou ficando grávida, mas nenhum bebê sobrevivia.

Bastou retirar metade dos habitantes para que ela voltasse a gerar bebês viáveis, um êxito que cessou assim que a população cresceu de novo – sinal de que as condições apinhadas tinham um efeito negativo sobre as capacidades reprodutivas da pobre rainha.

O mais surpreendente, porém, foi o que houve quando os cientistas resolveram levar a colônia inteira para outras acomodações. O estresse da mudança ambiental parece ter feito com que duas filhas dela, chamadas Alexandria e Arwen – ambas da mesma ninhada – começassem a engravidar também.

A gravidez de Alexandria foi “de risco”, ela teve um problema no útero e precisou ser sacrificada. Mas Arwen teve mais sucesso, e a mãe, em vez de lutar com ela, passou a protegê-la durante a gestação dos netos e não ficou mais prenha.

Tudo isso sem evidência alguma de conflito dentro da colônia. Para os autores do estudo, sinal de que as transições de poder na espécie são mais maleáveis do que se imaginava. Apenas esquisitices dentuças? Talvez sim, mas também pode ser que tenham algo a ensinar.

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