Durante anos, a missão da SpaceX foi clara: levar humanos a Marte.

“A coisa mais poderosa que poderíamos fazer é estabelecer uma segunda civilização autossustentável fora da Terra”, disse Elon Musk, CEO da SpaceX, à Forbes em 2003, um ano após fundar a empresa. “E o único lugar realmente viável é Marte.”

Como lembrete desse objetivo, a SpaceX tem um mural em um café em seu campus em Hawthorne, Califórnia (Estados Unidos), retratando a progressão da colonização humana no Planeta Vermelho. A empresa também vende camisetas “Occupy Mars”, que Musk usa regularmente em público.

Mas nos últimos seis meses, Musk mudou as prioridades da SpaceX. Embora o magnata da tecnologia previu que humanos partiriam para Marte já em 2024, ele passou a dar menos ênfase a alcançar o planeta.

Em vez disso, a SpaceX anunciou na terça-feira (21) que fechou um acordo com a Cursor, startup de inteligência artificial, que pode resultar na aquisição da jovem empresa por US$ 60 bilhões (cerca de R$ 300 bi). Musk propôs outros projetos ambiciosos que podem atrair mais atenção e investimentos para a SpaceX enquanto a empresa se prepara para uma das maiores ofertas públicas iniciais de ações da história.

Entre seus anúncios estão centros de dados de IA que poderiam orbitar a Terra, fábricas na Lua e uma planta de fabricação de chips de IA, todos os quais contribuirão para um futuro utópico onde humanos nunca precisarão trabalhar, segundo ele.

Nesta semana, alguns investidores e gestores de fundos devem ter uma visão mais detalhada desses planos quando visitarem as instalações da SpaceX no Texas e no Tennessee antes do IPO, disse uma pessoa que foi convidada. Alguns investidores também estavam programados para visitar o campus da SpaceX em Hawthorne na próxima semana, disse a pessoa.

As metas em constante mudança confundiram os investidores.

“É um plano de negócios alucinógeno”, diz Ross Gerber, CEO da Gerber Kawasaki, uma firma de investimentos que possui ações da SpaceX. Ele acrescenta que Musk “perdeu a cabeça” ao tentar gerar entusiasmo para a oferta pública.

Mudar objetivos antes de um IPO seria impensável para a maioria dos líderes corporativos, que tendem a focar em seus negócios principais e tentar projetar estabilidade para potenciais investidores. As novas metas de Musk para a SpaceX levantam questões sobre o quanto os acionistas podem confiar nele, afirmam especialistas em governança corporativa. No entanto, o bilionário tem uma capacidade incomum de levar os investidores junto com ele, dizem.

“Na maioria das outras corporações onde o CEO faz promessas que não se concretizam, os investidores tendem a reagir de forma adversa, e eles geralmente não duram muito”, diz Brian Quinn, professor de direito do Boston College. Mas com Musk “as pessoas acreditam nele ou querem acreditar nele”.

Em publicações online, Musk reconheceu a “mudança de prioridade” da SpaceX. Mas disse que as novas metas não prejudicam o plano de Marte e são trampolins para tornar os humanos uma espécie multiplanetária.

“As capacidades que desbloquearemos ao tornar os centros de dados espaciais uma realidade financiarão e permitirão bases autossustentáveis na Lua, uma civilização inteira em Marte e, em última instância, a expansão para o universo”, escreveu Musk em uma carta de fevereiro aos funcionários da SpaceX.

Musk tem um histórico de fazer previsões ousadas que não se materializam. Mas embora seus cronogramas possam ser imprecisos, suas visões de longo prazo geraram enormes oportunidades, disseram seus apoiadores.

“Elon está sempre correto na direção”, disse Peter Diamandis, investidor da SpaceX e fundador da XPrize Foundation, uma organização sem fins lucrativos que apoia o desenvolvimento tecnológico. “Seus prazos podem estar errados, mas ele eventualmente chega lá.”

Musk e um porta-voz da SpaceX não responderam aos pedidos de comentário.

Ao longo dos anos, Musk reconheceu sua falta de planos de negócios e sua dependência do instinto. Oito ex-executivos e funcionários da SpaceX, falando sob condição de anonimato por temerem retaliações, disseram ao The New York Times que, durante seus períodos na empresa, se acostumaram com as mudanças de direção de Musk e seu uso das redes sociais para fazer anúncios ou mudanças de produtos.

Em 2014, Musk anunciou no Twitter, agora conhecido como X, que a SpaceX realizaria um evento para revelar a segunda versão de sua cápsula Dragon, uma espaçonave destinada a transportar passageiros e carga da órbita. O veículo não estava nem perto de ser concluído, então sua equipe correu para montar um design completo e um evento, disseram os ex-funcionários.

“Queremos dar um grande passo na tecnologia e realmente criar algo que fosse uma mudança radical na tecnologia de espaçonaves”, disse Musk no evento, onde revelou um veículo que poderia pousar em qualquer lugar da Terra usando propulsão a jato. (A SpaceX posteriormente abandonou a ideia em favor de pouso baseado em paraquedas depois que Musk determinou que a propulsão a jato da Dragon não era prática, disseram três das pessoas ao Times.)

Naquele mesmo ano, Musk se interessou por internet baseada em satélites e começou a se reunir com Greg Wyler, fundador da OneWeb, uma startup de satélites. A relação nunca se concretizou, e Musk seguiu por conta própria, abrindo um escritório de engenharia da SpaceX em Redmond, Washington, em 2015 para desenvolver satélites de internet.

O serviço resultante, Starlink, passou por demissões enquanto a SpaceX investia em pesquisa e desenvolvimento. Mas a aposta valeu a pena: o Starlink agora tem 10 milhões de assinantes e gerou US$ 8 bi (aproximadamente R$ 40 bi) em vendas em 2024, de acordo com documentos obtidos pelo Times.

Agora Musk parece estar tentando replicar o modelo do Starlink, mas com centros de dados no espaço. A SpaceX não havia focado anteriormente em IA, muito menos em data centers orbitais, disseram três dos ex-executivos da SpaceX. Mas depois que o Google e outras empresas tecnológicas começaram a discutir centros orbitais no ano passado, Musk declarou em outubro que “a SpaceX fará isso”.

Em janeiro, a SpaceX apresentou documentação à Comissão Federal de Comunicações para potencialmente lançar um milhão de satélites para um “sistema de data center orbital”. Uma semana depois, anunciou uma fusão com a xAI, a startup de IA de Musk.

Musk parece ansioso para levar a SpaceX ainda mais para o campo da IA. No acordo com a Cursor anunciado na terça-feira, a SpaceX disse que a combinação com a jovem empresa de IA, que produz software de escrita de código, “nos permitirá construir os modelos de IA mais úteis” do mundo.

Outra nova meta é a Lua. Enquanto dois dos ex-executivos da SpaceX disseram que Musk havia anteriormente descartado pousar na Lua porque não era uma conquista nova, ele disse em fevereiro que a empresa “mudou o foco para construir uma cidade autossustentável na Lua”.

Com o sucesso da recente missão Artemis 2 da Nasa e o compromisso da agência com mais exploração lunar, Musk pode ver uma oportunidade financeira imediata, disseram os ex-executivos da SpaceX.

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