Aliados da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), indicam que a parceria sugerida por Flávio Bolsonaro nas anotações do senador sobre os palanques estaduais do PL não deve se concretizar.
As notas de Flávio foram reveladas pela Folha.
A lista de pré-candidatos discutida em reuniões da cúpula do partido mostra que, em Pernambuco, o único nome cogitado pelo PL para o governo é o de Raquel, que vai disputar a reeleição. Procurada pela reportagem, a governadora não comentou o possível apoio do PL, mas aliados dela dizem que essa proposta não deve se concretizar.
Raquel Lyra mantém proximidade com Lula (PT), que em 2022 teve 67% dos votos no segundo turno em Pernambuco, ante 33% de Jair Bolsonaro (PL). Seu adversário, o prefeito do Recife, João Campos, é do PSB, que deve integrar uma coligação com o PT e, portanto, será palanque de Lula.
Como mostrou a coluna Painel, Raquel reafirmou a Lula, em reunião neste mês, que apoiará sua reeleição caso ele se mantenha neutro na disputa estadual.
Aliados da governadora e mesmo integrantes do PL em Pernambuco afirmam que ela não deve fazer campanha para Flávio. Bolsonaristas, porém, dizem que ela é a única opção que resta a eles, dado que descartam votar em João Campos.
“Tenho ressalvas em relação a ela, sobretudo na parte de segurança pública, mas os únicos candidatos no estado são Raquel e João. No segundo turno da eleição passada, votei nela”, diz o deputado federal Coronel Meira (PL-PE).
O rascunho de observações feito por Flávio e obtido pela reportagem ainda indica outro imbróglio no estado, na disputa ao Senado. Os nomes cogitados são Anderson Ferreira (PL) e Miguel Coelho (União Brasil).
O nome de Anderson, porém, aparece riscado por Flávio e, em seu lugar, o senador escreveu “Mendonça Filho (PL)”, indicando uma expectativa de que o ex-ministro e hoje deputado deixe o União Brasil e se filie ao PL para concorrer ao Senado. Mendonça não respondeu à reportagem.
Essa possibilidade, no entanto, divide o PL. “Cel Meira gosta. Só Gilson não gosta”, escreveu Flávio.
Procurado pela reportagem, o ex-ministro do Turismo de Bolsonaro Gilson Machado (Podemos) disse que essa observação não procede. “Sou amigo de Mendonça, como vou ser contra?”, afirmou. Ele reforçou, contudo, que é pré-candidato ao Senado ou à Câmara e que tem o apoio de Bolsonaro para concorrer.
Mendonça já foi sondado pelo PL para se filiar e também tem convites de outros partidos. Apesar de ser considerado viável para o Senado, o deputado trabalha por enquanto com a ideia de reeleição.
As anotações de Flávio trazem informações sobre estratégias em outros palanques.
Ao tratar de Minas Gerais, Flávio anotou que o vice-governador Mateus Simões (PSD), que vai disputar o governo, o “puxa para baixo”. Mateus faz oposição a Lula e tem proximidade com a agenda bolsonarista, mas a interpretação é de que o senador fez essa observação porque o vice já está comprometido a apoiar Romeu Zema (Novo) na eleição presidencial.
Mateus afirmou que tem boa relação com o PL em Minas e sugeriu que pode, caso o apoio do partido a ele se confirme, formar um palanque duplo, com Zema e Flávio. O governador de Minas também é cogitado para ser candidato a vice-presidente na chapa de Flávio.
“Acho que minha relação com o PL local e com Nikolas [Ferreira] mostra que esse é um risco que podemos minimizar em um palanque ‘misto'”, disse à Folha.
Outra alternativa do PL, segundo as anotações de Flávio, é lançar o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, ao governo. Roscoe deve se afastar da entidade e se filiar ao PL no próximo mês, mas seu futuro eleitoral ainda não está decidido.
No Paraná, também pode haver palanque duplo, caso o governador Ratinho Júnior (PSD) seja candidato a presidente. A lista do PL aponta como possíveis candidatos ao governo o secretário Guto Silva (PSD), nome apoiado por Ratinho, e o senador Sergio Moro (União Brasil).
O rascunho de Flávio trata de todos os estados. Na Bahia, por exemplo, ele escreve que vai procurar ACM Neto (União Brasil) antes de montar um palanque. O ex-prefeito e pré-candidato ao governo não quis comentar.
Em Alagoas, as duas opções para o governo são o prefeito JHC (PL) e o deputado Alfredo Gaspar (União Brasil). “Único que pedirá voto para mim”, observa Flávio em relação a Alfredo Gaspar. JHC foi procurado pela reportagem, mas não quis comentar.
Um adendo no verso do papel traz observações sobre Goiás, onde os cotados para o Senado são o deputado Gustavo Gayer (PL) e Gracinha Caiado (União Brasil), que é mulher do governador Ronaldo Caiado (PSD). Ali é dito que Gayer “pensa em desistir”, enquanto o deputado Daniel Agrobom (PL-GO) “quer sair” e a deputada Magda Mofatto (PSD-GO) “sai”.
Flávio fez uma série de anotações em relação ao prefeito de Ananindeua, Daniel Santos (PSB), indicando que ele pode ser vice de um dos nomes colocados para o governo do Pará ou pode disputar o governo em outro partido.
“É hoje do PSB (não pede voto para FB/ anti-Helder)”, em referência ao governador Helder Barbalho (MDB), aliado de Lula.
O rascunho diz ainda que pesquisa mostra “chance grande de fazer um senador nesse palanque”. A lista traz Mário Couto (PL) e Simão Jatene (PL) como possíveis nomes para o governo e Joaquim Passarinho (PL) e Eder Mauro (PL) para o Senado.
Outros estados
Não há na lista um nome para o Governo de Sergipe, mas a anotação de Flávio à caneta traz “Ricardo Max (PL)”. Trata-se de Ricardo Marques (Cidadania), vice-prefeito de Aracaju. O senador ainda pontuou: “foi âncora da Globo”.
Para o Senado, os listados são Rodrigo Valadares, que trocaria o União Brasil pelo PL, e Coronel Rocha. O nome de Eduardo Amorim (PSDB) aparece riscado.
O prefeito de Natal, Álvaro Costa Dias, deve trocar o Republicanos pelo PL e concorrer ao Governo no Rio Grande do Norte, segundo o documento. “Palanque nosso” e “evento em 21 de março”, diz. Dos nomes para o Senado, constam o do senador Styvenson Valentim (PSDB) e o de Coronel Hélio Oliveira (PL), sendo que o primeiro aparece com a observação “eleito”.
O rascunho, ao tratar do Amazonas, traz uma nota de Flávio de que o governador Wilson Lima (União Brasil) teria “80% de desaprovação”. Logo abaixo há o nome Alfredo Nascimento, presidente do PL-AM, com a inscrição “é do Valdemar”. O PL no estado faz parte da gestão Wilson.
A candidata ao governo seria Maria do Carmo (PL) —conforme a explicação feita pelo senador, ela foi candidata a vice-prefeita na chapa do deputado Capitão Alberto Neto (PL), que perdeu a Prefeitura de Manaus em 2024. Alberto Neto, por sua vez, aparece como opção ao Senado ao lado do senador Plínio Valério, que trocaria o PSDB pelo PL.
Além deles, está escrito à mão o nome do vereador Sargento Salazar (PL) e a observação “perdemos se houver composição com Wilson”.
Sobre Roraima, Flávio observa que o governador Antonio Denarium (PP) pode ser cassado. Ali, a candidata ao governo seria a ex-deputada Teresa Surita (MDB), enquanto os candidatos ao Senado seriam o prefeito de Boa Vista, Arthur Henrique (PL), e o senador Mecias de Jesus (Republicanos).
Em Rondônia, o cenário está indefinido. O senador Marcos Rogério (PL) é indicado tanto ao Senado como ao governo. Outros três nomes ao Senado levam observações. Fernando Máximo (União Brasil) “vem para o PL se Bruno não for candidato”. Com Bruno Scheid (PL) “vamos perder, perdemos Marcos Rogério”. E Coronel Marcos Rocha (União Brasil) “deve ficar no mandato (não será candidato)”.