A operação montada pelo Supremo Tribunal Federal para tentar tirar o bode do caso Master do seu plenário é, sob todos os aspectos, um processo de enxugamento de gelo.
Ao rifar Dias Toffoli apenas parcialmente, não antes sem fornecer uma certidão de bons antecedentes ao enrolado ministro num comunicado eivado de corporativismo, a corte parece acreditar que é possível estancar a sangria a que está submetida.
Tal coagulação só irá ocorrer por um fator incontrolável: a eventual revelação do tamanho da teia de Daniel Vorcaro e os seus. Segundo essa hipótese, corrente entre alguns ministros do STF, o estrago é tão grande que o acordão é inevitável.
Afinal, ninguém sai exatamente bem até aqui no escândalo, alguns piores que outros. Atores graúdos do mercado financeiro, órgãos reguladores, Tribunal de Contas da União, Polícia Federal, Procuradoria, o Supremo e uma variedade ainda opaca de políticos.
Isso explica a cautela vigente no governo e no Congresso, apesar das admissões mudas do temor de impactos sistêmicos da crise.
Voltando ao Supremo, mesmo se Toffoli acabar caindo por obra de novas descobertas, o foco irá mudar imediatamente para Alexandre de Moraes e o contrato milionário do escritório de sua mulher com o Master.
Se Toffoli era visto com certo desprezo no Congresso, particularmente no Senado que afia as facas para impedir um ministro do STF desde sempre, Moraes inspira um misto de temor reverencial e ódio. Se for exposto, a pressão subirá.
Com tudo isso, o Supremo arrisca ver sua discutível reputação de curva de rio dos problemas nacionais, formada desde que julgou e condenou o lulismo federal no caso do mensalão em 2012.
Para bem e para mal, a corte assumiu um protagonismo inaudito, com vaivéns de opinião ao vento político que inspiram análise até hoje, como no caso da prisão em segunda instância.
Em seu favor, foi levado a isso também por um Congresso omisso e focado na lucrativa micropolítica, além de um Executivo abalado por crise sucessivas, como o petrolão, o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e os escândalos sob Michel Temer (MDB), a balbúrdia de Jair Bolsonaro (PL).
O zênite desse processo se desenhou a partir da instauração do inquérito das fake news em 2019, aberto de ofício por Toffoli, então presidente da corte. O poder amealhado pelo relator do caso, Moraes, não tem paralelo na história.
Se ele incorreu em abusos relatados, não é injusto creditar à ação do ministro papel central na contenção dos ânimos golpistas encarnados em Bolsonaro, ora presidiário. Essa obra agora está sob risco, de forma análoga ainda que por motivos diversos do que ocorreu com a Lava Jato.
A maior operação anticorrupção da história foi tisnada pela exposição das motivações políticas de seus atores, e o mesmo Toffoli foi instrumental no desmonte de seus resultados mais vistosos. Agora, claro, é diferente, mas a resultante política será mais ataques ao trabalho do STF no caso da trama golpista.
Só isso já garante o impacto que todos os líderes dizem que não haverá do caso Master sobre a eleição de outubro. Aqui, a conta cai no colo do presidente Lula (PT).
Primeiro, porque ele abraçou gostosamente a relação com o STF como um contraponto a um Congresso mais hostil, o que até aqui deu certo. Não é casual que na salva inicial de sua guerra tarifária com o Brasil, Donald Trump não fizesse distinção entre Judiciário e Executivo ao exigir a anistia a Bolsonaro.
Mas todo bônus tem um ônus, e danos à imagem da corte respingam no governo. Nesse sentido, as candidaturas de Flávio Bolsonaro (PL) e de eventuais rivais à centro-direita tendem a ganhar pontos —num pleito que caminha hoje para ser decidido no olho mecânico, qualquer casa decimal importa.
Por óbvio, esse raciocínio só sobrevive se membros da oposição não acabarem atingidos pelo caso Master. O que se sabe é que vemos a erosão rápida de um arcabouço de poder, cuja restauração é mais do que incerta —parece improvável que um código de conduta vá dar conta do problema, restando sempre a opção do acordão.