Suíça, França, Eslovênia e outros países europeus já reivindicaram que a madeira usada nos célebres violinos de Antonio Stradivari (1644-1737) veio de suas florestas.

Um estudo publicado no mês passado na revista Dendrochronologia sugere uma provável fonte de matéria-prima, ao menos para algumas das peças: árvores que cresciam no norte da Itália, no mesmo vale que sediou parte dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026.

Nos séculos 17 e 18, Stradivari produziu mais de 800 instrumentos. A maioria deles são violinos, mas também há violoncelos, violões e uma harpa.

Um instrumento Stradivarius é valorizado sobretudo por sua qualidade sonora. “Ele faz tudo melhor”, afirmou Peter Beare, diretor da Beare Violins, uma empresa na Inglaterra que restaura, vende e autentica violinos de alto padrão.

A madeira usada na fabricação de um violino —especialmente a superfície frontal, conhecida como tampo harmônico— é fundamental. Parâmetros como densidade e rigidez da matéria-prima afetam diretamente o som final. “A escolha da madeira é muito, muito importante”, disse Beare.

Sabe-se que Stradivari tinha preferência por abeto, porém a origem exata da madeira sempre foi envolta em mistério. É aí que entra o estudo dos anéis das árvores: a dendrocronologia.

A maioria das árvores produz um anel de crescimento a cada ano, e a largura dele depende das condições ambientais. Altos níveis de umidade tendem a resultar em anéis mais largos, por exemplo. Assim, uma sequência de anéis é como um código de barras que registra as condições vivenciadas por uma árvore ano após ano.

Os anéis das árvores são facilmente medidos nos tampos harmônicos dos violinos. Foi isso que o dendrocronologista e luthier John Topham fez ao longo de várias décadas. Antes de falecer no ano passado, o britânico compartilhou suas meticulosas medições de 284 violinos Stradivarius com o também dendrocronologista Mauro Bernabei, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália em San Michele all’Adige.

É um verdadeiro tesouro de dados, segundo Bernabei. Contudo, esses registros não revelam nada sobre onde Stradivari obtinha sua madeira. Para descobrir isso, o pesquisador e seus colegas compararam os padrões encontrados nos violinos com registros de anéis de árvore coletados em mais de 6.000 locais ao redor do mundo e armazenados no Banco Internacional de Dados de Anéis de Árvore.

“Cada floresta ou cadeia de montanhas vai ter um padrão ligeiramente único de anéis largos e estreitos ao longo do tempo”, disse o dendrocronologista Chris Guiterman, da Universidade do Colorado (Estados Unidos), que ajuda a gerenciar o banco de dados e não participou da pesquisa. “Essas peculiaridades de cada local ajudam a identificar árvores de uma origem desconhecida.”

Foi um desafio localizar registros que remontassem à época de Stradivari. “Não é fácil encontrar madeira antiga”, disse Bernabei.

Alguns dos dados que a equipe utilizou vieram de medições de vigas de madeira de castelos e igrejas. Havia incerteza nesse processo, de acordo com o pesquisador. “Não se sabe se um castelo foi construído com madeira da floresta ao seu redor.”

Bernabei e seus colegas agruparam registros de violinos que apresentavam padrões de anéis de árvore semelhantes e montaram uma sequência média de anéis para cada grupo. Quando os pesquisadores compararam essas médias com registros do Banco Internacional de Dados de Anéis de Árvores, descobriram que pouco mais da metade dos violinos da amostra não apresentou uma correspondência conclusiva.

É praticamente impossível, segundo Bernabei, afirmar qualquer coisa sobre a origem da madeira desses violinos além de dizer que provavelmente saiu da Itália, da Suíça ou da Áustria.

No entanto, a sequência média de anéis de árvore de uma fração considerável dos violinos da amostra apresentou boa correlação com anéis de árvores da região de Trentino, no norte da Itália, especificamente das áreas de alta altitude do Val di Fiemme.

Curiosamente, esses violinos tendiam a ter sido produzidos durante a chamada Era de Ouro de Stradivari, aproximadamente de 1700 a 1725, período conhecido por instrumentos Stradivarius de qualidade particularmente alta.

Talvez o artesão italiano tenha produzido seu melhor trabalho quando encontrou uma fonte de madeira no Val di Fiemme e permaneceu fiel a ela, de acordo com Bernabei.

Isso faz sentido, na avaliação de Beare, que não participou do estudo. Mas essa descoberta não deveria diminuir a genialidade de Stradivari. Foi a habilidade do artesão, combinada com materiais excepcionais, que permitiu a Stradivari produzir algumas de suas melhores peças, afirmou. A madeira por si só não garante o sucesso.

“Você pode ter a melhor peça de madeira e estragar tudo completamente”, ressaltou o diretor da Beare Violins.

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