O símio mais célebre da história da ciência pode ser a peça-chave para demonstrar que os grandes primatas não humanos também são capazes de usar a imaginação e conseguem brincar de faz-de-conta. Experimentos conduzidos nos EUA indicam que Kanzi, um bonobo ou chimpanzé-pigmeu, compreendia o conceito de objeto imaginário, antes visto como algo exclusivo das capacidades mentais do Homo sapiens.
As conclusões vêm de um trabalho realizado pela brasileira Amalia Bastos, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e por Christopher Krupeneye, da Universidade Johns Hopkins (EUA). Em artigo na revista Science, a dupla conta como executou uma série de testes cognitivos com Kanzi, envolvendo algo que a grande maioria das crianças do planeta pratica espontaneamente desde muito cedo: fingir que está bebendo algo delicioso em um copo vazio.
Kanzi, que morreu em 2025 aos 44 anos, provavelmente por causa de problemas cardíacos, tornou-se uma celebridade da primatologia por causa de suas habilidades linguísticas —embora a verdadeira extensão dessas capacidades tenha sido alvo de controvérsias.
Nascido em cativeiro na cidade de Atlanta (sul dos EUA), o bonobo passou décadas de sua vida “colaborando” com pesquisadores como a americana Sue Savage-Rumbaugh, em estudos que iam desde possíveis técnicas para a fabricação de instrumentos de pedra, por analogia com os ancestrais da humanidade, até o desenvolvimento das capacidades de comunicação do primata.
Kanzi aprendeu a usar um teclado de mais de 300 lexigramas (símbolos que representam objetos ou conceitos) para tentar responder a pedidos ou perguntas dos pesquisadores. Além disso, parecia compreender muitas frases em inglês. Para a maioria dos pesquisadores, porém, o jeito com que ele “falava” com os cientistas estava longe de imitar as funções gramaticais da linguagem humana, como a formação de frases segundo normas claras.
Seja como for, histórias sobre a agilidade mental de Kanzi nunca faltaram —e o mesmo vale para alguns grandes símios na natureza ou em cativeiro, os quais supostamente seriam capazes de interagir com entidades imaginárias. Há casos de fêmeas de chimpanzés muito jovens que “cuidam” de galhinhos como se fossem bebês de sua espécie, ou de macacos que fingem “dar comidinha” para bonecas quando estimulados a isso por seres humanos.
Bastos e Krupeneye investigaram essa possibilidade de forma mais sistemática ao brincar com Kanzi usando um jarro de suco e dois copos. Antes, o bonobo tinha sido treinado usando duas garrafinhas do tipo “squirt” (as de apertar, de plástico maleável), ambas transparentes, uma vazia e outra cheia de suco. Bastava Kanzi apontar para a garrafa desejada —em 100% das vezes, é claro, ele apontava para o recipiente visivelmente cheio e ganhava o suco.
A fase 2 do estudo, porém, envolvia o uso do jarro e dos copos vazios, também transparentes. A equipe de pesquisa fingia despejar líquido nos dois copos; depois, “devolvia” o suco para o jarro. Por fim, perguntavam a Kanzi: “Cadê o suco?”.
A ideia era que ele apontasse para o copo vazio cujo conteúdo imaginário não tinha sido supostamente despejado no jarro de novo. E, em cerca de 70% das vezes, era exatamente isso o que ele fazia, escrevem os pesquisadores. Trata-se de um indício, para a dupla de autores do artigo na Science, de que o animal é capaz de “representação secundária” —a capacidade de imaginar situações que não correspondem ao que está diante dele aqui e agora.
“As representações secundárias são apenas mais uma dessas barreiras que tentamos estabelecer entre nós e os outros animais. Há um conjunto crescente de evidências de que outros animais são capazes de manter representações secundárias, mas este é o primeiro estudo experimental controlado a demonstrar isso no contexto do faz de conta.”
Há meras duas décadas atrás, ainda se discutia se essa capacidade teria surgido há apenas algumas dezenas de milhares de anos, com o aparecimento de manifestações artísticas complexas entre os primeiros Homo sapiens que colonizaram a Europa. Essa proposta, porém, parece cada vez mais improvável.
“Parafraseando Darwin, acredito que a diferença entre nós e os outros animais seja de ‘grau’, e não de ‘tipo’. Este estudo sugere que os grandes símios são capazes de compreender o faz de conta, e que nossas mentes podem ser mais semelhantes do que imaginávamos antes”, conclui a pesquisadora.