Quando um cavalo relincha, ele está assobiando e cantando ao mesmo tempo. A conclusão é de pesquisadores que examinaram a mecânica de como esses animais emitem o som. Eles descreveram o resultado em um artigo publicado na revista Current Biology no último dia 23.
“Os cavalos foram domesticados há mais de 4.000 anos e ainda não sabíamos como eles produziam seus sons”, afirmou Elodie Briefer, professora associada da Universidade de Copenhague (Dinamarca) e uma das autoras da nova pesquisa.
A caixa de voz, ou laringe, é um tubo muscular que contém tecidos que produzem som quando o ar passa por eles. Em geral, animais grandes possuem caixas de voz grandes e pregas vocais grandes (também conhecidas como cordas vocais), que vibram lentamente para produzir sons graves e retumbantes. Com seus relinchos agudos, os cavalos pareciam desafiar essa tendência.
Mais de uma década atrás, Briefer analisava um espectrograma —uma visualização da frequência de uma onda sonora— do relincho quando notou algo estranho: dois sons distintos de alta e baixa frequência acontecendo simultaneamente.
“Todo mundo achava que os cavalos produziam frequências muito mais altas do que o previsto pelo tamanho corporal”, afirmou Briefer. “Eles não tinham percebido que, abaixo desse tom agudo, existe um tom grave.”
Briefer publicou essa descoberta em 2015, entretanto alguns cientistas desconfiaram que de fato fossem dois tons diferentes. No novo estudo, ela e seus colegas se propuseram a documentar como os dois tons eram produzidos dentro da laringe de um cavalo.
Primeiro, os pesquisadores utilizaram uma câmera endoscópica para capturar imagens em vídeo das laringes dos cavalos em ação. Quando emitiam sons graves, as pregas vocais desses animais vibravam, de forma semelhante às dos humanos quando cantam. Quando emitiam sons agudos, as estruturas na laringe deles permaneciam imóveis.
Para observar ainda mais de perto a mecânica da caixa vocal de um cavalo, os cientistas construíram uma máquina capaz de replicar o processo biomecânico de um relincho.
No laboratório de David Reby na Universidade de Lyon Saint-Étienne (França), a equipe conectou uma laringe de cavalo a um fluxo de ar. Mais uma vez, os pesquisadores observaram que o som agudo não vinha da vibração das pregas vocais, mas sim da passagem forçada do ar pela laringe: essencialmente, usando a própria laringe como um apito.
Para Tecumseh Fitch, professor da Universidade de Viena (Áustria) e também autor do novo artigo, a prova definitiva de que a parte aguda de um relincho era um assobio ocorreu quando substituíram o ar comprimido por hélio.
O som viaja mais rápido no hélio do que no ar comum, contudo a forma como um som é produzido afeta como ele vai interagir com esse meio. Um som produzido por uma corda de violão dedilhada ou por uma prega vocal vibrando ainda sairia na mesma frequência tanto no ar quanto no hélio, porque essas vibrações físicas em si ainda estão acontecendo na mesma velocidade.
Já um som produzido por um apito aerodinâmico, como uma flauta doce ou uma flauta transversal, ficaria mais agudo se o ar através desse apito fosse hélio.
Quando os pesquisadores lançaram hélio através da laringe do cavalo, “a frequência subiu muito”, disse Fitch, um sinal claro de que a parte aguda do relincho é de fato um assobio. Esse tipo de vocalização foi observado nos guinchos ultrassônicos de roedores, porém esta é a primeira vez que foi documentado em um animal de grande porte.
“Este será um artigo de referência em termos de estimular pesquisas sobre vocalizações em equídeos”, disse Sue McDonnell, professora adjunta da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos). Ela não participou do projeto.
Segundo McDonnell, a história evolutiva das vocalizações dos cavalos e seus significados continuam sendo um mistério, em parte porque os que são mantidos em fazendas são muito mais comunicativos do que os selvagens. “A maioria das vocalizações que você ouve em situações domésticas são de estresse.”
A professora também observou que estudos adicionais a respeito das vocalizações de cavalos podem distinguir ainda mais os vários sons que os cavalos emitem. “Se você prestar atenção neles em condições naturais, percebe que são todos tipos diferentes”, disse McDonnell.
Pesquisas sobre as nuances de significado de todos esses sons poderiam ainda melhorar o bem-estar dos cavalos, segundo a professora. Quanto às pessoas que trabalham com esses animais, ela acrescentou: “Seria muito bom se elas soubessem o que esses cavalos estão tentando dizer”.