Uma nova espécie de pássaro esteve durante todo esse tempo “escondida” dos pesquisadores. Isso porque a ave, encontrada nas ilhas Tokara, parte do arquipélago de Ryukyu, no sudoeste do Japão, é morfologicamente idêntica à outra observada no conjunto de ilhas Izu, mas as duas populações representam um grupo geneticamente e ecologicamente distinto.

A ave, batizada de Phylloscopus tokaraensis, é uma espécie da família Phylloscopidae, que inclui 80 espécies conhecidas como toutinegras ou felosas (nome popular “warblers”, em inglês).

No Japão, a espécie P. ijimae (toutinegra-da-folha-de-Ijima) era conhecida tanto para as ilhas Tokara quanto para as ilhas Izu, na parte leste, distantes mais de 1.000 quilômetros. Com esse tipo de variação na distribuição, já havia uma desconfiança que esses animais tivessem características únicas.

Os achados, que confirmam essa hipótese, foram publicados no dia 17 de março na revista científica PNAS Nexus.

“Há cerca de dez anos, o meu colega Takema Saitoh [primeiro autor do artigo], do Instituto Yamashina de Ornitologia, me enviou amostras de DNA mitocondrial [sequência genética passada das mães para filhotes e muito usada em estudos] de P. ijimae das ilhas Tokara. Eu já tinha amostras para P. ijimae de Izu e, ao compará-las, fiquei surpreso em ver a diferença enorme entre elas, o tipo de distância [filogenética] que encontramos entre outras espécies do gênero. Por isso, decidimos ir às ilhas coletar mais dados em campo”, explica Per Alström, professor da Universidade de Uppsala (Suécia) e coordenador da pesquisa.

No estudo, que contou ainda com pesquisadores da Universidade Normal de Pequim (China), do Instituto de Pesquisa em Produtos Florestais e Florestas de Kyoto (Japão) e do Centro Global de Biodiversidade de Gotemburgo (Suécia), foi possível identificar a nova espécie por análises moleculares (DNA) e também por meio do canto, que difere de maneira consiste entre as duas aves.

Como em pássaros canoros (do grupo Passeriformes) o canto é um importante marcador específico, já que fêmeas não vão se interessar e reproduzir com machos que não tenham o canto igual, os cientistas dizem acreditar que a diferença no canto entre as duas populações é uma importante barreira que contribuiu para o processo de especiação.

“Os cantos são provavelmente barreiras reprodutivas pré-acasalamento muito importantes neste grupo. As fêmeas não acasalam com machos que têm canto muito diferente daquele com o qual estão programadas a reconhecer desde filhotes –e que provavelmente é selecionado geneticamente”, afirma.

Após a análise preliminar inicial e com novas amostras de DNA do trabalho de campo, bem como gravações sonoras e espécimes coletados para estudo em laboratório, os pesquisadores chegaram a uma divergência genética significativa das duas populações, indicando que elas se separaram do ancestral comum (provavelmente, uma toutinegra continental) entre 3,2 e 2,8 milhões de anos atrás.

A nova espécie amplia, assim, o conhecimento da biodiversidade das toutinegras-da-folha no país e revela como espécies crípticas (quando uma espécie até então conhecida como sendo um único táxon representa, na verdade, um número maior de espécies distintas entre si geneticamente) podem surgir a qualquer momento e trazer novas informações sobre a evolução dos seres. É um achado raro também para o Velho Mundo (região biogeográfica que compreende a Ásia, Europa e África), que já possui quase toda a sua diversidade de vertebrados bem conhecida.

Segundo Alström, as hipóteses evolutivas até então apontam para um cenário onde um ancestral comum mais recente, distribuído por todo o Japão, desapareceu da ilha central em algum momento, deixando as populações das ilhas Izu e Tokara isoladas. “Com o tempo, elas divergiram uma da outra”, explica, lembrando ainda que, por serem espécies endêmicas de ilhas, elas se tornam assim mais vulneráveis a eventos externos, como erupções vulcânicas, incêndios, doenças trazidas por espécies invasoras ou perda de habitat. “Ainda não sabemos como as mudanças climáticas irão afetar as ilhas, mas com certeza são grupos vulneráveis.”

“Acredito que a biodiversidade críptica seja extremamente comum e, na verdade, a maior parte da diversidade é provavelmente críptica –e não descoberta– se considerarmos microrganismos e organismos como fungos, que são subterrâneos. Também em aves, há muitas espécies crípticas a serem descobertas. Análises genéticas (especialmente genômicas) são as principais ferramentas para descobrir essas espécies”, diz Alström.

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