A pandemia da Covid foi um momento extraordinário na história. A partir do final de 2019, um vírus se espalhou pelo planeta, matou mais de 25 milhões de pessoas e causou trilhões de dólares em danos econômicos.
Mas, como outras epidemias, a Covid foi bastante comum, revela um novo estudo.
Pesquisadores compararam sete surtos virais que ocorreram nas últimas décadas, incluindo de Covid, Ebola e gripe.
Na maior parte dos casos, os cientistas descobriram que os surtos não foram precedidos por nenhuma mudança genética incomum nos vírus. Em todos os casos, exceto um, em 1977, os vírus circulavam em animais e ganharam a capacidade de se espalhar para e entre pessoas apenas por uma coincidência infeliz.
“Vemos isso repetidamente”, disse o especialista em vírus Joel Wertheim, da Universidade da Califórnia em San Diego (Estados Unidos). Ele e seus colegas publicaram o estudo no último dia 6 na revista Cell.
A equipe reconstruiu a história evolutiva desses vírus analisando os genes deles. Rastrearam como os vírus adquiriram diferentes tipos de mutações antes de causar surtos e observaram esse padrão depois que eles saltaram para a população humana.
Em uma das linhas da pesquisa, eles examinaram a pandemia de gripe suína de 2009. Naquele ano, uma nova cepa de gripe surgiu na América do Norte e infectou um quarto de todas as pessoas na Terra, matando 230 mil.
Estudos sobre o vírus revelaram que ele partiu de porcos, animais nos quais os vírus da gripe ganham mutações regularmente. Algumas mutações dificultaram a propagação dos vírus para outros porcos. Outras proporcionaram uma vantagem evolutiva; outras ainda não tiveram efeito algum.
A cepa viral que saltou para humanos em 2009 havia se separado de sua linhagem evolutiva pelo menos uma década antes. Até chegar aos humanos, sua evolução parecia comum; o padrão de mutações adquiridas e perdidas pelo vírus se assemelhava ao que os cientistas esperariam ver em qualquer vírus da gripe prosperando em porcos.
Somente depois que o vírus saltou para humanos as coisas mudaram, e drasticamente.
Após infectar humanos em 2009, o vírus da gripe ganhou muitas mutações. Em porcos, essas mutações provavelmente teriam prejudicado a capacidade do vírus de se multiplicar e feito com que fosse superado por outros vírus que afetam os animais. Mas, uma vez que o vírus se estabeleceu em um novo hospedeiro, essas antigas restrições desapareceram. Ele começou a se adaptar para se espalhar com mais sucesso em humanos.
Wertheim e colegas realizaram a mesma análise em outros surtos, incluindo a epidemia de Ebola que atingiu a África Ocidental em 2013 e que pode ter se originado em um morcego, e o surto de Mpox de 2022, um vírus que causa bolhas dolorosas e que se acredita ser abrigado por esquilos africanos.
Repetidamente, os pesquisadores viram o mesmo padrão: os vírus que no fim saltaram para humanos não evoluíram de maneira incomum antes, mas mudaram dramaticamente depois.
“Uma vez que entra em humanos, é um novo dia”, disse Wertheim.
Um dos vírus analisados foi exceção a essa regra, afirmam os autores no novo estudo. Suas mutações únicas sugerem que ele pode ter sido liberado devido a um acidente laboratorial.
Em 1977, o mundo foi atingido por uma pandemia que ficou conhecida como gripe russa, porque os primeiros casos foram relatados pela União Soviética. Cientistas ficaram intrigados com o vírus: seus parentes mais próximos não estavam em porcos ou outros animais, porém se pareciam muito com vírus que circulavam no início dos anos 1950, um quarto de século antes.
Alguns cientistas especularam que a gripe russa não foi um “spillover” (termo para quando um vírus passa de um grupo animal para o humano) de um porco ou ave. Em vez disso, sugeriram que ela tinha se originado a partir de um acidente laboratorial, talvez um teste de vacina que deu errado na União Soviética ou na China.
Os fabricantes de vacinas podem ter usado uma técnica comum que envolvia produzir uma vacina feita de vírus atenuados. Vírus crescendo em placas de petri em laboratório acumulam mutações que seriam prejudiciais a eles se estivessem infectando uma pessoa.
Cientistas especularam que soviéticos ou chineses descongelaram algum vírus da gripe antigo para fazer uma vacina atenuada, entretanto usaram técnicas defeituosas que permitiram que o vírus se espalhasse de pessoa para pessoa.
Desde então, pesquisadores não encontraram evidências diretas para testar essa hipótese ou outras semelhantes.
O novo estudo de Wertheim e seus colegas concluiu que o vírus de 1977 passou por uma evolução estranha antes da pandemia —e que as mutações que adquiriu apresentam padrões idênticos aos encontrados em vírus cultivados em laboratórios.
Gigi Gronvall, especialista em biossegurança da Universidade Johns Hopkins, disse que o novo estudo sugere que a pandemia de 1977 começou como um ensaio de vacina. “É mais uma evidência de que estavam tentando criar uma vacina atenuada e falharam.”
Spyros Lytras, especialista em vírus da Universidade de Tóquio (Japão) que não participou do novo estudo, afirma que a metodologia do estudo oferece uma nova ferramenta para rastrear a origem de surtos. “Os dados genéticos contêm um sinal robusto que pode distinguir entre passagens e manipulações em laboratório versus transbordamentos naturais.”
Para James Lloyd-Smith, ecólogo de doenças da Universidade da Califórnia em Los Angeles, detectar a assinatura genética da evolução em laboratório na gripe russa foi “muito legal”. Mas ele alertou que os cientistas normalmente capturam só uma fração da evolução dos vírus em suas amostras. “Essa abordagem não é uma varinha mágica, e o estudo ainda enfrenta os mesmos desafios de dados limitados que têm atormentado o campo.”
Dos vários surtos que Wertheim e seus colegas analisaram, apenas a gripe russa se mostrou uma exceção à regra. O vírus que causou a pandemia da Covid (Sars-CoV-2) não foi.
Os pesquisadores não encontraram mudanças peculiares no Sars-CoV-2 antes de ele saltar para humanos. Ele ganhou mutações enquanto se espalhava de morcego para morcego, assim como outros coronavírus de morcegos faziam; apenas depois que o vírus emergiu em humanos ele passou por uma mudança marcante. Em um ano, variantes radicalmente novas estavam evoluindo, com mutações que as tornavam excepcionalmente bem adaptadas aos humanos.
O novo estudo se soma ao debate em andamento sobre as origens da Covid. Em uma entrevista em janeiro ao The New York Times, Jay Bhattacharya, diretor do NIH (Institutos Nacionais de Saúde, na sigla em inglês), afirmou que o coronavírus emergiu de um laboratório. “Se você se concentrar apenas nas evidências científicas, eu diria que é certo.”
No mês passado, um grupo de especialistas designados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para examinar as origens da Covid afirmou ser mais provável a hipótese de o Sars-CoV-2 ter se originado em morcegos, que então o passaram para animais vendidos em um mercado em Wuhan.
“A maior parte das evidências científicas revisadas por pares apoia essa hipótese”, observaram eles.