Crianças de apenas dois anos de idade já esperam que outras pessoas mostrem sinais de lealdade ao grupo de que fazem parte, mas também que tenham suas próprias preferências quando não há influência desse grupo. As conclusões, que vêm de experimentos conduzidos por uma dupla de pesquisadoras nos Estados Unidos, reforçam a ideia de que o instinto para seguir regras sociais é algo que acompanha os membros da nossa espécie desde o começo da infância.

A chinesa Lin Bian, da Universidade de Chicago, e a canadense Renée Baillargeon, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, publicaram os resultados de seu estudo no dia 2 deste mês no periódico PNAS, da Academia Nacional de Ciências americana. É claro que não é possível entrevistar crianças de dois anos sobre como enxergam a relação entre grupos sociais, mas há um jeito indireto de investigar as reações delas, já muito utilizado em outras pesquisas sobre a cognição infantil: a direção e a duração do olhar.

De fato, os pesquisadores descobriram que, desde os primeiros meses de vida, é possível medir o grau de interesse e surpresa dos bebês com base no tempo que eles fixam o olhar em determinada cena ou pessoa. Tudo indica, por exemplo, que situações inesperadas, que violam as expectativas naturais de uma criança acerca do que “deveria” acontecer, atraem o olhar dos pequenos por mais tempo do que algo que está dentro do esperado.

Essa técnica já revelou, entre outras coisas, que bebês desenvolvem rapidamente uma compreensão intuitiva da física terrestre, estranhando, por exemplo, quando objetos suspensos no ar não caem ao chão. Do ponto de vista social, a mesma abordagem tem revelado que crianças na faixa dos dois anos ficam surpresas quando fantoches ou personagens de desenhos animados não retribuem uma ajuda ou atrapalham outro indivíduo que está em dificuldade –por outro lado, tendem a preferir personagens “bonzinhos”.

Nessa seara, os experimentos formulados por Bian e Baillargeon estão entre os mais complexos. Em essência, elas queriam testar a tendência das crianças dessa idade ao “bairrismo” (sabe-se, por exemplo, que elas já preferem interagir com pessoas que falam sua própria língua). Mas também desejavam investigar se essa tendência é contrabalançada por uma percepção do contexto social.

Para investigar isso, elas organizaram uma espécie de teatrinho, assistido pelos bebês no colo de um dos pais (no total, participaram 36 crianças, todas de famílias cuja língua nativa era o inglês). Diante delas, em três “janelinhas” (na esquerda, na direita e na frente) apareciam, primeiro, três mulheres.

Duas pertenciam ao mesmo grupo (os pesquisadores as designaram como A1 e A2), enquanto a outra pertencia a outro grupo (a B1). Sem se dirigir diretamente aos bebês, a moça A1 dizia: “Eu sou uma cheeba!” (um nome de grupo fictício criado pelas pesquisadores). A moça A2 respondia: “Eu também sou uma cheeba!”. Por fim, a moça B2 dizia outro nome de grupo inventado: “Eu sou uma moblin!”

Fase 2: a moça A2 aparecia sozinha em sua janela, na frente de dois brinquedos bem diferentes no formato e na cor, um deles colocado perto da janela da mulher B1 e o outro perto da janela da A1. A moça, então, escolhia o brinquedo perto da janela B1 (ou seja, supostamente associado ao grupo externo).

Fase 3: a moça A2 saía de cena e reapareciam A1 e B1, cada uma delas diante de seus respectivas brinquedos. Cada uma pegava os objetos, brincava um pouco com eles e depois ficava um instante parada, olhando para eles. A ideia aqui era associar cada um dos brinquedos com os respectivos grupos de cheebas e moblins.

A fase final do teatrinho era uma cena na qual A1 e B1 apareciam primeiro no “palco”; depois, A2 abria a sua cortina e olhava para os brinquedos dos dois. Soava então uma sineta, e B1 dizia: “Olha, é a sineta!”. É aí que A2 podia tanto decidir pegar o brinquedo “do seu grupo”, igual ao de A1, ou então pegar o outro tipo de brinquedo (as crianças foram divididas em dois subgrupos, cada um dos quais assistia a uma das possibilidades).

Conforme as pesquisadores esperavam, houve uma diferença significativa entre os cenários, com as criancinhas fixando o olhar por mais tempo –um indicativo de surpresa ou mesmo choque– quando a moça A2 escolhia o brinquedo “do outro grupo”, em vez daquele “do seu grupo”, quando B1 estava presente.

Mas, quando B1 estava ausente da cena (outra variante do experimento), elas olhavam por mais tempo –estranhando, portanto– quando A2 escolhia o brinquedo do seu próprio grupo, porque as crianças teriam percebido que essa não era a preferência pessoal dela.

As autoras do estudo ainda realizaram uma série de modificações nos experimentos para tentar verificar razões alternativas para a reação das crianças, mas, do ponto de vista estatístico, não houve mudanças nos resultados. Elas propõem, portanto, que nessa idade os seres humanos já estão desenvolvendo a capacidade de distinguir entre preferências pessoais e aquilo que as normas de um grupo exigem de seus membros, como mostrar lealdade a um tipo de conduta diante de quem é de fora do grupo.

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