Novas pistas sobre variações do clima no passado podem ajudar a entender como o cultivo do milho (Zea mays) se transformou no alicerce das grandes civilizações nativas do continente americano.

Reconstruções climáticas feitas por pesquisadores do México e dos Estados Unidos indicam que, embora a domesticação do cereal seja muito antiga, seu plantio só decolou de vez após uma grande fase de seca, que teria forçado os povos do sul do território mexicano a intensificar a exploração agrícola e depender menos dos alimentos que obtinham como caçadores-coletores.

Os resultados foram publicados no último dia 4 no periódico especializado Science Advances e englobam toda a história climática da região do vale de Tehuacán (estado de Puebla, no centro-sul do México) a partir do fim do Pleistoceno, ou Era do Gelo, chegando até o período em que se inicia a invasão espanhola do território, no século 16.

A área de Tehuacán é estratégica para esse tipo de estudo porque os sítios arqueológicos da região abrigam alguns dos exemplares mais antigos de espigas de milho do planeta –a idade estimada para os resquícios é de cerca de 5.500 anos.

Além disso, Tehuacán está situada num planalto (com altitudes entre 1.000 m e 1.700 m), e o clima atual é semiárido. Acredita-se que a adaptação da planta a essas condições após a fase inicial de sua domesticação (bem anterior, por volta de 9.000 anos atrás) teria sido importante para a popularização de seu cultivo em outras regiões da América do Norte e da América Central ao longo dos séculos.

No fim das contas, teria sido a alta produtividade do “milho 2.0” desenvolvido nesse contexto, facilitado por sistemas de irrigação, a responsável por permitir o aumento populacional dos indígenas da área. Aos poucos, isso parece ter permitido o surgimento da complexidade social, a fundação de cidades-Estado, construções monumentais (como templos, “quadras” do jogo de bola nativo e até pirâmides) e, por fim, impérios, como o das astecas.

Falta, porém, saber quais os possíveis motivos por trás da aparente demora nesse processo, considerando o momento inicial de domesticação do milho. Parte da resposta pode constar do novo estudo, liderado por Andrew Somerville, da Universidade do Estado de Iowa (EUA), junto com colegas da Universidade Autônoma do México e outras instituições.

A principal ferramenta usada por Somerville e seus colegas para reconstruir os vaivéns do clima em Tehuacán nos últimos 33 mil anos é indireta: a composição química dos ossos de dois dos principais animais consumidos pela população pré-colombiana da região. Os bichos em questão são o veado Odocoileus virginianus (a espécie à qual pertence o personagem Bambi, também presente no Brasil, onde é conhecida como veado-galheiro) e os coelhos do gênero Sylvilagus (o mesmo dos tapitis, que ocorrem em solo brasileiro).

A equipe extraiu duas moléculas presentes nos ossos dos bichos, bioapatita e colágeno, e levou em conta a presença neles de diferentes isótopos (variantes) dos elementos químicos carbono, oxigênio e nitrogênio. Acontece que, quando se alimentam, os animais sempre acabam ingerindo substâncias que contêm uma mistura de isótopos desses elementos, mas as condições ambientais influenciam qual é a proporção exata entre eles.

No caso do isótopo carbono-13, por exemplo, a tendência é que ele se torne mais comum no organismo dos seres vivos num clima mais árido, porque as plantas adaptadas a essas condições são mais hábeis em usá-lo no processo de fotossíntese (que usam para construir seu próprio organismo). Um raciocínio parecido pode ser aplicado às proporções dos isótopos de outros elementos, o que permite reconhecer variações na temperatura e na umidade ao longo do tempo, desde que também seja possível estimar a idade dos ossos dos animais.

O que os dados obtidos a partir dessa metodologia revelam é que o cultivo de milho no vale de Tehuacán começou durante um período relativamente mais úmido, com aumento das áreas florestadas na região e diminuição dos trechos de campinas e áreas mais desérticas. Durante esse período, o milho era só parte de um pacote de subsistência bem mais amplo, com ênfase na caça e na coleta.

Essa fase foi seguida por um período seco prolongado, entre 4.200 anos e 3.900 anos atrás, e a hipótese dos pesquisadores é que esse teria sido o “laboratório” para um uso mais amplo do milho como fonte de subsistência.

O fato de que o aumento populacional na região e o uso mais intensivo do milho decolam assim que as condições mais úmidas retornam, nos séculos seguintes, sugere, para os arqueólogos, que as técnicas necessárias para que isso acontecesse já tinham sido preparadas no período de vacas magras anterior.

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