A relação entre os seres humanos e seus companheiros caninos tem pelo menos 16 mil anos de idade, remontando aos milênios finais da Era do Gelo, indica uma série de análises de DNA conduzidas por dois grupos de pesquisadores. Os genomas desses cães, que viveram na atual Turquia e em outros países europeus, são os mais antigos indícios obtidos até agora da domesticação de um animal pelo Homo sapiens.

Os resultados saíram nesta quarta-feira (25) na revista científica Nature, uma das mais importantes do mundo, e reforçam a ideia de que a associação entre a nossa espécie e os cachorros (Canis lupus familiaris) é muito mais profunda do que a que existe entre os seres humanos e qualquer outra espécie domesticada.

Um dos trabalhos foi coordenado por Anders Bergström, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, enquanto o outro tem como primeiro autor William Marsh, do Museu de História Natural de Londres. As equipes internacionais chefiadas pelos dois adotaram abordagens ligeiramente diferentes, que se complementam para traçar um retrato abrangente, ainda que não definitivo, das origens caninas.

Marsh, junto com dezenas de colegas, conseguiu obter o genoma “principal” (ou seja, o DNA presente no núcleo das células) de animais encontrados na caverna de Gough (Reino Unido), no sítio arqueológico turco de Pinarbasi e em diferentes localidades da atual Sérvia. As idades dos ossos dos bichos são, respectivamente, de 15,8 mil anos, 14,3 mil anos e entre 11,5 mil e 7.900 anos.

Já Bergström e companhia analisaram e compararam o DNA de mais de 200 animais antigos, dessa vez de olho num período mais abrangente, que vai desde o fim da Era do Gelo até os vários milênios de expansão da agricultura pela Europa, terminando por volta de 5.000 anos atrás. A ideia, nesse caso, era verificar se o início do período agrícola, também conhecido como Neolítico, tinha algum elo com a ascensão dos cães domésticos.

Trabalhos anteriores já tinham apontado a possibilidade da existência de cães domesticados muito antigos a partir da análise da estrutura óssea dos animais, mas há dois problemas nesse tipo de análise.

O primeiro é que nem sempre é simples determinar a diferença entre um cão doméstico “verdadeiro” e um lobo amansado por antigos caçadores-coletores apenas com base nos ossos.

O segundo é que ainda não se sabe ao certo qual teria sido a população (ou as populações, no plural) de lobos a partir da qual os cães atuais surgiram, e ela poderia ser anatomicamente ainda mais próxima do animal domesticado, o que complicaria ainda mais qualquer conclusão.

A análise dos genomas tem potencial para resolver esse impasse, desde que os dados arqueológicos também sejam levados em conta, e os novos estudos parecem ser avanços consideráveis nessa direção.

“Bergström e Marsh chegaram mais perto do que nunca da origem dos cães, mapeando as fases iniciais de sua evolução na parte ocidental da Eurásia”, escreveu a dupla de pesquisadores Mikkel-Holger Sinding e Lauren Hennelly, respectivamente da Universidade de Copenhague e da Universidade Rice, no Texas, em comentário sobre os estudos feito a pedido da Nature.

O otimismo deriva do fato de que diversos indivíduos muito antigos –a começar pelo animal da Turquia de 15,8 mil anos e incluindo o do Reino Unido de 14,3 mil anos e outro da Suíça, de 14,2 mil anos– têm genomas muito mais próximos dos de cães modernos do que de lobos atuais ou extintos. Junto com a morfologia dos animais, também “domesticada”, isso parece resolver de vez o debate: milênios antes da origem da agricultura (em torno de 10 mil anos atrás), já havia cães domésticos.

Há dois outros detalhes intrigantes que aparecem na análise dos dados de DNA. O primeiro é que o parentesco entre o cão de Pinarbasi, na Turquia, e o da caverna de Gough, em solo britânico, é relativamente muito próximo, o que significa que, ao longo de distâncias de milhares de quilômetros (e milhares de anos), a ideia de ter cães domesticados provavelmente se espalhava com facilidade entre diferentes povos e culturas variadas já nessa época –talvez com filhotes passando de mão em mão num “telefone sem fio” do Mediterrâneo Oriental ao mar do Norte.

Além disso, curiosamente, a equipe de Bergström verificou que a chegada da agricultura à Europa alterou relativamente pouco a genética dos cães domésticos já presentes lá –as mudanças foram muito menores do que na própria população humana, a qual recebeu um grande influxo populacional de agricultores primitivos vindos do Oriente Próximo. Aliás, os cães europeus atuais ainda têm uma herança considerável de seus primeiros ancestrais domésticos.

Apesar das descobertas importantes, os trabalhos ainda deixam muita coisa em aberto. Falta saber se 16 mil anos atrás é uma data relativamente próxima dos primeiros eventos de domesticação canina ou se eles podem ter ocorrido muito antes, por exemplo. E o mais difícil é definir um modelo claro que explique como foi o processo inicial de aliança entre humanos e cães –por meio de parcerias para a caça ou a guarda de acampamentos, por aproximação gradual dos próprios lobos que comiam restos deixados pelas pessoas ou por outros mecanismos.

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