Três caças F-15E americanos foram abatidos sobre o Kuwait na madrugada da última segunda-feira (2) em um aparente incidente de fogo amigo durante a Operação Epic Fury, na guerra conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Todos os seis tripulantes se ejetaram com segurança e estão em condição estável. Mas segurança é um termo relativo quando se é ejetado de uma aeronave viajando em velocidade de combate.
Muitas vezes há apenas alguns segundos para se tomar essa decisão, que desencadeia uma série de eventos que submetem o corpo a algumas das maiores forças G (o efeito da aceleração no corpo) que um ser humano pode suportar. Esperar demais pode ser fatal. Estudos sugerem que demoras estão associadas a taxas de mortalidade de até 23%.
Os pilotos de caça podem suportar até nove G com a ajuda de equipamentos antiG. Mas mesmo esses equipamentos só podem ser usados por um curto período de tempo. A ejeção de um caça a jato gera forças muito além disso. Para contextualizar as forças envolvidas, a maioria das pessoas perde a consciência em torno de cinco G, porque o efeito da gravidade supera a capacidade do coração de bombear sangue para o cérebro.
O assento é lançado para fora da aeronave e, em seguida, impulsionado para cima para garantir altitude suficiente para que o paraquedas se abra com segurança, acelerando o ocupante a até 200 m por segundo ao quadrado —cerca de 20 vezes a aceleração da força da gravidade na Terra.
Quando usados dentro dos parâmetros recomendados —velocidade, altitude e atitude (o ângulo ou posição da aeronave no ar) corretas—, os assentos ejetáveis modernos apresentam uma taxa de sobrevivência superior a 95%.
Os assentos ejetores modernos são conhecidos como “zero-zero”, o que significa que podem ser usados tecnicamente mesmo que a aeronave esteja parada no solo. Mas as ejeções a baixa altitude, abaixo de 152 m, reduzem a taxa de sobrevivência para cerca de 50%.
A ejeção é apenas o começo
Sobreviver à ejeção não é garantia de sair ileso. Uma grande revisão das evidências descobriu que lesões graves ocorrem em pouco menos de 30% das ejeções, afetando a coluna vertebral, os membros, a cabeça e o tórax.
As fraturas na coluna vertebral são as mais comuns, ocorrendo em até 42% das ejeções, com as vértebras T12 e L1 (a vértebra mais baixa da região média das costas e a vértebra mais alta da região lombar) representando quase 40% das fraturas da coluna vertebral em um grupo de tripulantes alemães.
Os discos amortecedores entre as vértebras absorvem as mesmas forças e podem comprimir-se acentuadamente, de forma semelhante à maneira como a coluna vertebral se comprime naturalmente durante o dia, fazendo com que a maioria das pessoas perca até 20 mm de altura diária normal.
A direção da ejeção também é importante. Em um voo normal, as forças G positivas pressionam o piloto contra o assento, fazendo com que o sangue se desloque para a parte inferior do corpo. A força G negativa ocorre quando a aeronave acelera para baixo em relação ao piloto, como durante uma descida ou ao voar de cabeça para baixo, levando o sangue para a cabeça.
A ejeção nessas condições tem sido associada a lesões oculares, provavelmente causadas por mudanças rápidas de pressão nos delicados vasos sanguíneos dos olhos, e pode resultar em cegueira temporária que dura meses.
Uma vez fora da aeronave, a tripulação é atingida por uma “rajada de vento” –uma violenta corrente de ar causada pela velocidade do jato. Em algumas circunstâncias, isso pode atingir 600 nós, e há casos registrados de ejeção acima da velocidade do som.
A essas velocidades, máscaras e equipamentos podem ser arrancados –um problema grave em altitude, onde máscaras de oxigênio são essenciais. Sua perda pode provocar hipoxia –falta de oxigênio que afeta o raciocínio e a tomada de decisões–, reduzindo a capacidade dos tripulantes de gerenciar sua própria sobrevivência.
A alta altitude também envolve o risco de hipotermia e queimaduras pelo frio, dependendo da localização e das condições.
Fragmentos da cabine podem ficar incrustados em tecidos moles expostos –o pescoço é particularmente vulnerável–, enquanto em casos mais graves, peças da aeronave ou estilhaços de mísseis podem causar traumas penetrantes no fígado, pulmões e outras estruturas, exigindo cirurgia de emergência.
Se o paraquedas for acionado com sucesso, o choque da abertura –a desaceleração repentina à medida que a copa se enche– pode, por si só, quebrar costelas e deslocar ombros, bem como causar lesões no períneo (a área entre as pernas) devido ao arnês. Quase 50% das lesões no paraquedismo ocorrem no pouso, sendo que os pés sofrem um terço de todas as lesões.
Para aqueles que pousam em árvores em vez de no solo, o perigo não termina aí. Ficar suspenso num arnês por qualquer período de tempo acarreta o risco de trauma de suspensão –às vezes chamado de “síndrome de suspensão por arnês”–, em que o sangue se acumula nas pernas e tem dificuldade para retornar ao coração e ao cérebro, levando à inconsciência e, em alguns casos, à morte.
O tempo de recuperação para aqueles que sobrevivem varia muito. Estudos mostram que o retorno às funções de voo pode levar de uma semana a seis meses, dependendo da gravidade dos ferimentos sofridos.
A ejeção continua sendo muito mais segura do que tentar sobreviver a uma queda. Para os seis tripulantes do F-15E em recuperação no Kuwait, sobreviver à ejeção foi apenas o primeiro desafio.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original