“Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”: em ocasiões especialmente solenes, a liturgia católica ainda costuma soltar essa bomba de conceitos teológicos da Antiguidade Tardia na cabeça dos fiéis durante a missa. Para quem não a conhece, explico: a terminologia complicadíssima e poética da passagem acima faz parte do Credo Niceno-Constantinopolitano, a profissão de fé que define os elementos fundamentais da crença dos católicos (e da maioria dos cristãos ocidentais).
O tema do episódio de hoje da nossa série Como Deus Nasceu é o prefixo “Niceno” no nome do Credo: ou seja, a formulação que ele adquiriu durante o Concílio de Niceia, reunião de centenas de bispos realizada no ano 325, na Ásia Menor (atual Turquia). O trecho que citei se refere inteiramente a Jesus, porque o grande tema dos debates teológicos em Niceia foi o mesmo que tem monopolizado as colunas por aqui nas últimas semanas: a cristologia, ou seja, a natureza de Cristo e sua relação com o Deus único judaico-cristão.
As decisões do concílio só acabaram ganhando caráter oficial porque receberam o apoio de Constantino, o primeiro imperador romano cristão. Acima de tudo, Constantino desejava o fim dos debates sobre o tema que andavam dividindo a Igreja e exigiu que os bispos chegassem a uma solução de consenso. Participou pessoalmente do concílio, embora não tenha tomado parte nas votações.
As duas grandes posições em confronto durante os debates em Niceia eram representadas, de um lado, por Alexandre, arcebispo e patriarca da metrópole egípcia de Alexandria, e, de outro, o presbítero (sacerdote) Ário, nascido na atual Líbia, mas também membro do clero de Alexandria.
A posição de Ário, conhecida como arianismo, tinha conquistado um número considerável de adeptos e costuma ser resumida com variantes da seguinte frase: “Houve um tempo em que Cristo não existia”. Para Ário, Jesus era divino e tinha existido desde antes da criação do Universo. Porém, dois fatores o distinguiam claramente de Deus Pai: 1) ele havia sido criado por Deus tal como as demais criaturas, num ponto definido do tempo; 2) sua essência, ainda que divina, era fundamentalmente diferente da de Deus Pai.
Alexandre e seus apoiadores, porém, defendiam uma visão na qual Deus Pai e Deus Filho tinham a mesma natureza e estavam juntos “antes de todos os séculos” (outra frase-chave do Credo).
Entre 200 e 300 bispos participaram das discussões em Niceia (as listas de nomes e os números citados em outras fontes variam). Estavam presentes em peso sobretudo os prelados da parte oriental do Império Romano, o que faz sentido, considerando que o avanço cristão anterior a Constantino tinha sido especialmente forte nessas províncias. O papa de então, Silvestre, não compareceu, mas enviou um representante.
Embora Ário inicialmente contasse com algumas dezenas de defensores, só dois deles se opuseram à formulação final do Credo após os debates, a qual condenou de forma inequívoca o arianismo nas votações. Essa dupla e o próprio Ário, também renitente, acabaram sendo exilados por Constantino como punição. O novo Credo sacramentava que Jesus tinha a mesma natureza, era “consubstancial” ao Pai (em grego, “homoússios”, ou seja, “feito” da mesma substância ou essência que Deus).
A grande ironia é que, embora muitos cristãos de hoje continuem usando a mesma formulação, o debate ainda estava muito longe de ser encerrado quando Niceia terminou. Para continuar nossa narrativa, peço a opinião dos fiéis leitores da série. A seguir, será que devo abordar os debates teológicos que dividiram os cristãos no fim da Antiguidade? Ou é melhor partirmos para as origens do Islã, a última etapa da jornada? Agradeço as contribuições nos comentários.