O crescimento no número de artigos científicos publicados pode afetar a qualidade do sistema adotado para avaliar esses trabalhos. É o que sugerem Carl Bergstrom, da Universidade de Washington, e Kevin Gross, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, em uma pesquisa que saiu no mês passado na revista PLOS Biology.

Antes de serem publicados, estudos são revisados por pesquisadores que são da mesma área e não participaram do trabalho. Esses revisores podem apontar problemas, sugerir melhorias e enviar recomendações aos editores da revista científica, que decidem se o artigo será aceito ou não para publicação.

O volume de artigos publicados vem aumentando ano a ano. Só em 2024, foram 2,9 milhões no mundo, segundo relatório da editora Elsevier com a agência Bori. Vinte anos antes, não chegavam a 1 milhão.

Segundo o modelo proposto por Bergstrom e Gross, forma-se um ciclo de retroalimentação: mais submissões levam a avaliações menos precisas, o que incentiva ainda mais envios de manuscritos e aumenta a pressão sobre o sistema.

A revisão por pares não é remunerada. Os cientistas convidados a avaliar manuscritos trabalham de forma voluntária para as editoras científicas, que cobram taxas para a publicação (as chamadas APCs, ou “taxas de processamento de artigo”).

Para Gross, o sistema funcionou por décadas porque havia entre os pesquisadores um senso de coletividade. Além disso, o convite para avaliar artigos era visto como um reconhecimento.

“Agora, as comunidades científicas se tornaram menores e menos unidas. Enquanto isso, editoras comerciais construíram negócios lucrativos nas costas deste trabalho voluntário, lançando novos periódicos. O resultado é um cenário em que um artigo rejeitado em uma revista quase sempre é aceito em outra, mas cada nova submissão gera uma demanda adicional de revisores que já estão sobrecarregados”, diz.

No artigo da PLOS Biology, os autores partem de um modelo em que pesquisadores precisam decidir a quais periódicos devem submeter seus manuscritos: a revistas de alto impacto, mais seletivas, ou a grandes periódicos (os chamados “mega journals”), que costumam aceitar uma parcela maior dos artigos submetidos.

A partir dessa premissa, eles desenvolveram um modelo matemático que simula a interação entre autores, revisores e revistas. Ao explorarem diferentes cenários nesse modelo, os autores mostram que, conforme cresce o número de submissões, a qualidade média das avaliações tende a cair, o que aumenta a probabilidade de que artigos mais fracos sejam aceitos até em periódicos de prestígio.

Como um mesmo artigo pode ser submetido a diferentes revistas mesmo após ser rejeitado por alguma delas, avaliações menos precisas também aumentam a chance de que o trabalho acabe publicado em outro periódico. Embora essa possibilidade de ressubmissão eleve a probabilidade de que bons estudos sejam publicados, os revisores precisam trabalhar mais para dar conta desse volume.

Para Michel Laurin, diretor de pesquisa do Centro de Pesquisa em Paleontologia do Museu Nacional de História Natural de Paris (França), que não participou do estudo, o sistema de revisão por pares deveria funcionar não com base no fator de impacto de uma revista, mas na qualidade da ciência produzida.

“O que determina a importância de um artigo não é onde ele foi publicado ou quem o publicou, é o que está nele. E não há outra forma de determinar isso a não ser ler o artigo”, afirmou.

Laurin também vê um papel das próprias editoras científicas no aumento da pressão sobre revisores, com custos cada vez mais altos de publicação sem melhora proporcional na qualidade da ciência.

“A publicação científica nasce da comunicação entre pares de associações e sociedades científicas, então havia um senso de comunidade. Agora, quando você ‘trabalha’ [voluntariamente] para um periódico da Elsevier que cobra para publicar, não é a comunidade científica que te pede isso, é uma editora comercial, basicamente um agente de uma empresa com fins lucrativos.”

Uma das sugestões apresentadas no artigo da PLOS Biology para enfrentar o problema é ampliar o uso das chamadas rejeições editoriais, quando o editor faz uma leitura inicial do manuscrito e decide recusá-lo sem enviá-lo para revisão, além da possibilidade de remuneração para revisores.

“Os periódicos competem entre si por um mesmo conjunto de revisores. Como essa disposição é um recurso comum e escasso, cada editor busca adquirir ao máximo esse recurso, tornando o sistema inviável. Parece razoável que revisores, e especialmente revisores de revistas com fins lucrativos, sejam remunerados pelos seus esforços”, afirma Gross.

Para eles, um sistema de avaliação de cientistas que não seja puramente métrico —ou seja, que não leve em consideração apenas o número de artigos publicados em determinadas revistas e indicadores como o índice H— poderia ajudar a reduzir esse ciclo.

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