A rede de prostituição e pedofilia de Jeffrey Epstein pertence à esfera policial, mesmo que seus tentáculos produzam implicações políticas. Contudo, na era em curso, de lancinante degradação do debate público, tornou-se um borrifador giratório de acusações ideologicamente motivadas. Epstein virou Bombril.

Os mais jovens não sabem. No outono da década de 1970, marcou época a campanha de marketing da esponja de aço Bombril estrelada pelo ator Carlos Moreno. O “garoto Bombril” demonstrava as “mil e uma utilidades” do produto de limpeza doméstica. Epstein tem, igualmente, incontáveis utilidades.

A turma do Maga, o movimento de Trump, fixou-se no caso criminal uma década atrás, na esteira da seita virtual QAnon. A rede de Epstein seria o cume visível de uma conspiração mundial dos liberais. A cabala de pedófilos envolveria os líderes do Partido Democrata, bem como seus aliados europeus de centro-esquerda. Trump e JD Vance surfaram tal narrativa na sua mais recente campanha eleitoral, impondo ao atual presidente a incômoda liberação de milhões de documentos sob segredo judicial.

Os democratas entraram no jogo, apostando na emersão de revelações escandalosas sobre a antiga amizade de Trump com o financista criminoso. Pobres almas desorientadas: não sabem como funcionam as teorias da conspiração.

Epstein circulava na corte. Os documentos judiciais iluminam relações do salafrário com “todo mundo” –isto é, o mundinho dourado das celebridades políticas, empresariais, artísticas e literárias. Lá estão Bill e Hillary Clinton –e, agora, a maioria republicana os obriga a testemunhar perante o Congresso. Outro Bill, o Gates, também, talvez em busca de doações a sua fundação. Musk, idem, além de centenas de etc.

Larry Summers, ex-presidente de Harvard, teve que se afastar da universidade desde a descoberta de suas trocas de mensagens com Epstein. Uma foto mostra Woody Allen abraçado a Epstein. Outra, o esquerdista icônico Noam Chomsky no jatinho do financista –e há um email de sua esposa brasileira prontificando-se a enviar ao canalha um livro de Clarice Lispector.

Da montanha de lixo, pariram poucos ratos. Só apareceram provas incriminatórias contra umas poucas estrelas –como, notoriamente, o ex-príncipe Andrew. Inexistem evidências de crime até mesmo sobre Trump, apesar das fotos de folguedos antigos. Nada disso, porém, esmorece as campanhas de opinião dirigidas contra liberais, esquerdistas, conservadores ou reacionários.

Bombril. Jessé Souza, egrégio ideólogo da mais tosca esquerda brasileira, lançou um vídeo associando Epstein ao “lobby judaico”. A peça, de um antissemitismo digno da polícia czarista, foi logo apagada e o autor publicou uma patética “correção”, desculpando-se pelo “escorregão” –mas apenas substituindo “judaico” por “sionista”, o truque clássico do antissemita espertinho.

Esqueça o debate de ideias, essa mania de velhinhos caretas. A imagem é tudo. A impressão inicial molda, instantaneamente, a conclusão final. Mensagens de Epstein mencionam Lula, para júbilo do esgoto bolsonarista, e também Bolsonaro, para regozijo do esgoto lulista. O financista nasceu em família judaica, para gozo dos Jessés. Trump, Clinton, Chomsky ou o proverbial “judeu errante” –escolha o Epstein que te serve.

Diga-me qual é teu Epstein e te direi quem és.


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