Gregory Bovino ingressou na Patrulha da Fronteira em 1996, aos 26 anos. Sua carreira cinzenta só decolou três décadas mais tarde, quando seu estilo agressivo chamou a atenção do governo Trump, catapultando-o ao comando das operações policiais do ICE, a agência federal de imigração, em Chicago e Los Angeles. Diante do letreiro de Hollywood, Bovino postou uma foto do que batizou como “mean green team” (equipe verde malvada) e proferiu a seus homens a ordem de combate: “Esta é a nossa cidade”.

O governo Obama deportou 407 mil imigrantes no ano fiscal de 2012. Ao longo de 2025, Trump deportou cerca de 230 mil. A diferença: as atuais deportações não se concentram na fronteira ou nas prisões, mas nas cidades, atingindo imigrantes integrados às comunidades, inclusive milhares de portadores de vistos humanitários subitamente revogados. A principal missão de Bovino não era multiplicar o número de deportações, mas semear o terror na “nossa cidade”.

Ocupar a cidade. Subjavente às operações do ICE encontra-se um conceito militar: retomar terras conquistadas por inimigos. Tudo se passa como se os imigrantes fossem invasores estrangeiros. A noção estende-se aos governos das cidades-santuário, que inscreveram em leis locais a proibição de cooperação de suas polícias com o ICE. A Casa Branca conduz uma guerra doméstica e, inspirado por regimes autoritários, Trump habituou-se a utilizar a expressão “inimigo interno”.

A imagem é tudo. Numa investida, agentes do ICE desceram de helicópteros sobre um conjunto residencial, em cordas de rapel, para capturar um punhado de imigrantes inofensivos. A ação cinematográfica foi filmada pela agência e postada em redes sociais. Disseminar o medo –eis a estratégia oficial.

O número de agentes do ICE saltou de 10 mil para 22 mil entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. O recrutamento acelerado baseia-se em propagandas de apelo mercenário e ideológico. O “mean green team” foi treinado às pressas. Aprendeu que opera acima da lei, sob a proteção direta de Kristi Noem, secretária de Segurança Interna. São combatentes de uma milícia presidencial –e, por isso, circulam com rostos encapuzados. Bandidos federais.

A imigração, legal ou indocumentada, pertence à estrutura da sociedade americana. Mineápolis provou que é impossível deportar indiscriminadamente –nas ruas, residências, escolas e locais de trabalho– sem romper o tecido da vida social. A onda de manifestações de protesto contra o ICE, pontuada pelos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti, entrelaçou o tema da imigração ao das liberdades públicas e civis nos EUA. Os manifestantes que defendem os imigrantes estão, no fim das contas, erguendo uma paliçada em torno dos direitos constitucionais dos cidadãos americanos.

“Esta é a nossa cidade”, não a de vocês. Mineápolis encerrou a curta temporada de glória de Bovino. Dois dias após a morte de Pretti, o chefão foi removido do comando da milícia. Agora, anunciou-se a retirada de 700 agentes milicianos. “Fora ICE”: a resposta popular ao arbítrio federal é uma exigência de restauração da lei. A estratégia interna do governo Trump atingiu uma encruzilhada decisiva. A Casa Branca não pode avançar sem implodir suas bases partidárias e eleitorais. Mas não pode recuar de fato sem renunciar a seu projeto autoritário.


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