A primeira coisa que me explicaram na Escócia, com fino humor, foi que “aqui você percebe quando é verão porque a chuva fica um pouco menos gelada”. Assim, a manhã de 12 de fevereiro em Glasgow —com chuva, vento e temperaturas de um dígito—quase nem parecia inverno. Imagine o meu entusiasmo quando os colegas propuseram aproveitarmos o bom tempo escocês para passearmos pelo campus da universidade…
Em 575 anos de existência, a Universidade de Glasgow acumulou muitas glórias e vários de seus prédios estão associados a nomes famosos. Como o do matemático, físico e engenheiro Lorde Kelvin (1824–1907), pioneiro da termodinâmica e da teoria da eletricidade, primeiro cientista membro da Câmara dos Lordes britânica.
De repente, um nome que eu não conhecia: “Edifício James McCune Smith, em homenagem ao primeiro médico negro dos Estados Unidos”, explicou o colega escocês. Fiquei curioso. Quem era e como veio parar aqui? Voltou para sua terra e, se sim, o que aconteceu com ele? Pesquisando, descobri possivelmente o principal intelectual negro norte-americano do século 19, hoje praticamente esquecido em seu país. Mais ainda, um médico com vasto conhecimento da estatística, que usou amplamente em sua luta. Inclusive, foi membro fundador da Sociedade de Estatística de Nova York, em 1852.
James McCune Smith nasceu na escravidão, em Manhattan, em 18 de abril de 1813. Sua mãe, Lavinia, nascera na Carolina do Sul e fora transportada para Nova York ainda escravizada. Não sabemos quando nem como se tornou “uma mulher autoemancipada”, como o filho se referia a ela. O próprio James foi libertado, aos 14 anos, pela Lei de Emancipação do estado de Nova York. Do pai, ausente de sua vida, sabemos apenas que se chamava Samuel e era branco.
Apesar de ser “aluno excepcionalmente brilhante”, suas candidaturas a universidades norte-americanas foram rejeitadas por motivos raciais. Foi então encorajado a estudar na Escócia, com o apoio financeiro de um grupo de benfeitores abolicionistas. Ingressou na Universidade de Glasgow em 1832, tendo obtido o bacharelado em 1835, o mestrado no ano seguinte, e o doutorado em medicina em 1837.
Voltou a Nova York nesse ano, tornando-se médico no Orfanato para Crianças Negras de Manhattan, onde ficou por 20 anos, publicando diversos artigos científicos em periódicos de medicina. No início da década seguinte, casou-se com Malvina Barnett, uma mulher negra livre, com quem teve onze filhos (cinco chegaram à idade adulta).
Acabou ficando mais conhecido por seu ativismo na causa abolicionista. Integrou o Comitê dos Treze, que protegia escravos refugiados dos estados do Sul, e em 1853 participou na criação do Conselho Nacional das Pessoas de Cor, primeira organização nacional permanente dedicada à causa dos negros. Destacou-se também proferindo palestras e escrevendo artigos em que usava seu profundo conhecimento de medicina e de estatística para refutar os preconceitos racistas da época. Comentarei esse aspecto do seu trabalho na semana que vem.
Smith faleceu em 17 de novembro de 1865, menos de três semanas antes da ratificação da 13ª Emenda à Constituição, que aboliu a escravidão em todo o país.