A Lancet, uma das principais revistas médicas do mundo, retratou um artigo de quase cinco décadas que exaltava a segurança do talco, principal ingrediente do icônico talco para bebês da Johnson & Johnson. O produto gerou dezenas de milhares de processos contra a empresa após ser associado a casos de câncer.

Os editores da revista afirmaram ter descoberto recentemente que o artigo não assinado foi escrito por Francis J. C.Roe, consultor da Johnson & Johnson e renomado pesquisador de câncer.

Roe, já falecido, submeteu o manuscrito à empresa para alterações antes da publicação em 1977 —tudo sem o conhecimento da equipe editorial da época. O artigo original concluía que não havia razão para acreditar que o uso cosmético do talco pudesse causar câncer.

O conflito “foi uma clara violação da ética de publicação”, escreveram os atuais editores da Lancet na última quarta-feira (25). “Em nossa opinião, se os editores da época soubessem dessa situação e estivessem cientes do conflito de interesse não declarado do autor, não teriam publicado esse comentário.”

Tudo isso chegou ao conhecimento da The Lancet por meio de dois historiadores: David Rosner, da Universidade Columbia, e Gerald Markowitz, do John Jay College of Criminal Justice. Ambos têm longa trajetória de trabalho para lançar luz sobre crises de saúde pública e ocupacional.

A dupla escreveu para a revista em dezembro revelando que documentos obtidos durante a fase de análise dos processos contra a Johnson & Johnson mostraram que o artigo de 1977 foi escrito por Roe, que então entregou uma cópia antecipada à empresa e levou em conta as sugestões dela, de acordo com um comentário que escreveram para acompanhar a retratação.

O artigo original foi publicado em meio a uma disputa entre autoridades de saúde dos EUA e a indústria de cosméticos sobre a regulamentação do amianto no talco, segundo Rosner e Markowitz.

“A oposição da indústria ganhou legitimidade quando a The Lancet publicou um comentário não assinado em 1977, afirmando que não havia necessidade de regulamentação porque a indústria de cosméticos tanto nos EUA quanto no Reino Unido havia garantido que seus produtos estavam praticamente livres de amianto”, escreveram.

O artigo tem sido usado desde então para defender empresas que vendem produtos à base de talco em processos judiciais, de acordo com Rosner e Markowitz.

Lados Opostos

A Johnson & Johnson afirmou em comunicado que os historiadores “são eles próprios peritos pagos pelo lado dos demandantes no litígio do talco”.

“A Johnson & Johnson discorda veementemente da sugestão de que um editorial de 1977 na The Lancet reflete má conduta ou justifica condenação retroativa”, disse a empresa. “Embora a Johnson & Johnson respeite o compromisso da The Lancet em garantir a ausência de viés nos materiais que publica, infelizmente, neste caso, a revista está sendo usada como parte de táticas de litígio contínuas e desonestas.”

Ainda segundo a empresa, autoridades da FDA (agência que regulamenta e fiscaliza alimentos e remédios nos EUA) reconheceram que o artigo original era um texto de opinião e sabiam que foi escrito por Roe.

Até setembro, a Johnson & Johnson era alvo de mais de 73 mil processos judiciais de consumidores que culpam o talco infantil da empresa por doenças. Embora a empresa já tenha lidado com ações sobre o tema em mais de 20 julgamentos em tribunais estaduais, um juiz federal em Trenton, Nova Jersey, está preparando os primeiros casos em tribunal federal para julgamento.

“Esse é um exemplo claro e específico dos esforços de ‘ghostwriting’ da Johnson & Johnson denunciados por um terceiro independente”, afirmou a advogada Leigh O’Dell, que defende mulheres que estão processando a empresa sob a alegação de que o talco em pó para bebês causou câncer. “Definitivamente usaremos essa retratação da Lancet em nossos próximos julgamentos.”

A empresa tem sofrido reveses em julgamentos com júri. Em dezembro, um deles determinou o pagamento de US$ 1,56 bilhão (R$ 8,2 bilhões) a uma mulher que culpou o talco em pó pelo aparecimento de um câncer.

A Johnson & Johnson retirou o talco para bebês do mercado mundial em 2023 e o substituiu por um produto feito de amido de milho. Mas empresas de cosméticos ainda o utilizam em produtos de beleza como sombra e blush. Algumas vitaminas e medicamentos também contêm talco.

Marty Makary, da FDA, disse que quer analisar mais de perto o uso do talco em produtos que os consumidores ingerem. Em novembro, a agência retirou uma proposta para regulamentar testes de amianto em talco.

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