A engenhosidade humana é um negócio espantoso, e não apenas quando é usada para pintar o teto da Capela Sistina ou chegar à Lua. Ouso dizer que o brilhantismo típico desta espécie de grande símio só alcança mesmo o ápice de seu potencial quando é preciso tirar o nosso da reta.

Pense, por exemplo, nesta invenção maravilhosa da gramática de tantos idiomas, a voz passiva. “Alguns erros graves foram cometidos”, diz a empresa de mineração que soterrou um rio por causa de uma barragem defeituosa, o general que despachou milhares de soldados para uma arapuca montada pelo inimigo, a gigante petrolífera que resolveu ocultar os riscos ao clima trazidos por seu modelo de negócios.

Diante desse tipo de frase, qualquer pessoa com as capacidades cognitivas intactas deveria ser capaz de perguntar, na lata: “Cometidos por quem, ora bolas?”. Mas é claro que a expressão não é só reflexo da tradicional desfaçatez corporativa ou governamental. Como mostram os psicólogos Elliot Aronson e Carol Tavris, interesses políticos e econômicos podem até estimular o uso estratégico da voz passiva, mas eles se baseiam num impulso humano individual que é dificílimo de controlar.

Eis, em resumo, o tema de “Erros Foram Cometidos (Mas Juro Que Não Fui Eu)”, obra assinada pelos dois especialistas e publicada recentemente no Brasil. Repleto de exemplos que vão de eventos históricos aos mais pessoais, o livro é o melhor guia que conheço para entender um elemento fundamental da psicologia humana: a dissonância cognitiva.

Para resumir esse conceito-chave, originalmente formulado pelo americano Leon Festinger (1919-1989), considere uma prática imbecil em franca decadência, mas que ainda subsiste em certas universidades brasileiras: o trote sofrido pelos “bixos” ou calouros. Por que diabos alguém haveria de se submeter voluntariamente à humilhação pública e, pior, repetir a dose no ano seguinte com outros recém-chegados?

A dissonância cognitiva explica esse processo postulando que esse tipo de sofrimento paradoxalmente aumenta, na cabeça dos participantes, o valor de pertencer àquele grupo. A lógica inconsciente é esta: “Se eu passei por esse perrengue dos infernos para pertencer ao grupo X, significa que o grupo X é muito importante e elitizado”.

Adivinhe o que acontece, em geral, quando a pessoa é confrontada com fatos que mostram que, na verdade, o grupo X não passa de um bando de valentões acéfalos? “A necessidade de consonância é tão potente que, quando as pessoas são forçadas a encarar evidências refutatórias, encontram alguma maneira de criticá-las, distorcê-las ou descartá-las para manter sua convicção preexistente”, escrevem os autores do livro.

Junte esse fator à falta de confiabilidade da memória humana –sim, mesmo quem se acha capaz de recordar tudo, nos mínimos detalhes, recria suas lembranças inconscientemente o tempo– e aos vieses em favor do nosso grupo (e contra todos os demais) que construímos, e o resultado é erros sistemáticos contra minorias na Justiça, terapeutas e pacientes inventando juntos abusos infantis que nunca aconteceram e líderes políticos e religiosos feito João de Deus e Trump.

Portanto, se você ainda está na fase das resoluções para 2026, fica o conselho: confie menos no seu taco. Duvide. A pessoa mais fácil de enganar é você mesmo.

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