Há um ano, em março, o módulo de pouso robótico Blue Ghost chegou à Lua.
Construído pela empresa Firefly Aerospace, de Cedar Park, Texas, o Blue Ghost foi a primeira espaçonave americana em mais de meio século a descer na superfície lunar e concluir sua missão.
Embora a missão tenha sido bem-sucedida, houve um momento de perigo antes da alunissagem: um risco de colidir com outra espaçonave na órbita lunar, o que poderia ter encerrado a missão precocemente.
Will Coogan, engenheiro-chefe da Blue Ghost, disse que a equipe ficou surpresa com os eventos do 1º de março de 2025, um dia antes de pouso. “Existem pouquíssimas coisas em órbita lunar. Isso parecia tão improvável de ser um problema.”
Atualmente, 11 espaçonaves dos Estados Unidos, China, Índia e Coreia do Sul estão em órbita ao redor da Lua.
Nos últimos 15 anos, uma pequena equipe do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, na Califórnia, monitora espaçonaves em órbita da Lua e de Marte e emite alertas quando o caminho delas pode se cruzar.
Esse esforço é conhecido como Madcapd —em português, a sigla significa processo automatizado de avaliação de conjunção em espaço profundo para múltiplas missões.
Pense neles como controladores de tráfego espacial.
“A ideia básica é garantir que sabemos onde os outros objetos estão para evitar colisões”, disse David Berry, líder do grupo.
Segundo Berry, a principal razão para haver alguma probabilidade de colisões ao redor da Lua é que as órbitas das espaçonaves são escolhidas por motivos específicos, e não aleatoriamente.
Para missões científicas como a da espaçonave indiana Chandrayaan-2, muitas vezes faz sentido que elas voem em órbitas que passam sobre os polos norte e sul, permitindo que observem toda a superfície lunar.
Quando o Blue Ghost chegou à Lua em meados de fevereiro do ano passado, o módulo entrou em uma órbita polar elíptica, baixando gradualmente para uma órbita circular a uma altitude de 100 quilômetros. Era a mesma altura da Chandrayaan-2.
As trajetórias das duas espaçonaves indicavam que elas estavam bem distantes uma da outra. Mas sobre os polos norte e sul os caminhos delas potencialmente se cruzavam.
Berry afirmou que a equipe do Madcap emitiu, então, um alerta vermelho para uma potencial colisão em 1º de março. As chances de isso ocorrer, porém, eram muito baixas.
“Isso significa apenas mais de uma chance em 100 mil”, disse Coogan. “Eles nos davam atualizações de vez em quando. Ficava vermelho, mas você esperava um dia e não estava mais vermelho.”
Mas o alerta vermelho persistiu.
O Madcap pôs as equipes das espaçonaves em contato para discutir se uma ou ambas deveriam mudar de curso.
“Toda vez que fazemos uma manobra, isso também cria um risco”, afirmou Coogan. “Então, será que estamos criando ou eliminando risco?”
A Chandrayaan-2 estava em órbita ao redor da Lua desde 2019. Ela tem uma quantidade limitada de propelente para manobras, e a equipe indiana não queria usá-lo desnecessariamente.
Com mais análises, descobriu-se que as espaçonaves passariam uma pela outra a uma distância segura, e nenhum desvio foi necessário. O módulo Blue Ghost pousou em 2 de março do ano passado.
Esse episódio não foi a única vez que o Madcap emitiu alertas.
Em 2021, a Chandrayaan-2 acionou seus propulsores para garantir que saísse do caminho do Lunar Reconnaissance Orbiter, da Nasa.
Em 2023, o Madcap estava emitindo alertas vermelhos quase diários sobre aproximações perigosas entre quatro espaçonaves em órbita lunar: Lunar Reconnaissance Orbiter; Chandrayaan-2; uma espaçonave coreana, Danuri; e a Hakuto-R Mission 1, um módulo de pouso de uma empresa japonesa que no fim se chocou contra a superfície da Lua.
“Realizamos três reuniões de coordenação de manobras naquele mês para tratar dessas situações”, disse Berry.
No ano passado, o Madcap lidou com 11 “casos de resposta” —alertas vermelhos graves o suficiente para que a equipe de seis pessoas interviesse e garantisse que nenhuma colisão ocorresse.
Atualmente, o Madcap depende em grande parte das equipes das espaçonaves para fornecer atualizações das trajetórias. No futuro, sistemas instalados na Lua e em Marte poderão rastrear trajetórias de espaçonaves de forma precisa e automática.
Com a Lua atraindo mais interesse nos últimos anos e os planos da Nasa e da China de enviar astronautas para lá, a necessidade de gerenciamento do tráfego espacial também aumentará.
“Não queremos criar um campo de detritos”, afirmou Berry.