Em 1966, um robô do tamanho de uma bola de praia saltou pela superfície da Lua. Quando parou de rolar, suas quatro coberturas em forma de pétalas se abriram, expondo uma câmera que enviou a primeira foto tirada na superfície de outro corpo celeste.
Esta era a Luna 9, a sonda soviética que foi a primeira espaçonave a pousar em segurança na Lua. Embora tenha aberto caminho para a exploração interplanetária, a localização exata da Luna 9 permaneceu um mistério desde então.
Isso pode mudar em breve. Duas equipes de pesquisa acreditam ter rastreado os restos há muito perdidos da Luna 9. Mas há um porém: as equipes não concordam sobre a localização.
“Uma delas está errada”, disse Anatoly Zak, jornalista e autor que administra o site RussianSpaceWeb.com e noticiou a história na semana passada.
As descobertas conflitantes destacam um fato curioso da corrida espacial inicial: os locais exatos de repouso de várias espaçonaves que caíram ou pousaram na Lua no período que antecedeu as missões Apollo da Nasa foram perdidos. Uma nova geração de espaçonaves pode finalmente resolver esses mistérios.
A Luna 9 foi lançada à Lua em 31 de janeiro de 1966. Embora várias espaçonaves já tivessem colidido com a superfície lunar naquela fase da corrida espacial, ela estava entre as primeiras a tentar o que os engenheiros de foguetes chamam de pouso suave. Sua unidade central, um conjunto esférico de instrumentos científicos, tinha cerca de 60 centímetros de diâmetro. Esse tamanho a torna difícil de detectar a partir da órbita.
“A Luna 9 é um veículo muito, muito pequeno”, disse Mark Robinson, geólogo da empresa Intuitive Machines, que já pousou espaçonaves na Lua duas vezes.
Robinson também é o investigador principal da câmera do Lunar Reconnaissance Orbiter da Nasa, que estuda a superfície da Lua desde 2009. Embora a câmera, conhecida como LROC, consiga ver a Lua com resolução de poucos metros quadrados, o pequeno tamanho da Luna 9 está além de suas capacidades.
“Você pode ficar olhando para uma imagem e pensar que talvez seja isso, mas não dá para ter certeza”, disse ele.
Isso não impediu as equipes de pesquisa de vasculhar as imagens da LROC.
Vitaly Egorov, divulgador científico nascido na Rússia que administra o blog espacial Zelenyikot, passou anos procurando a Luna 9. Ele recentemente retomou a busca com um esforço de colaboração coletiva. Como o rastreamento de espaçonaves era uma arte imprecisa em 1966, ele expandiu a área-alvo para uma região de 100 km de largura e transmitiu ao vivo dados da LROC para que seus espectadores pudessem procurar pixels minúsculos e fora de lugar que pudessem ser sinais da sonda.
Egorov também examinou minuciosamente as imagens panorâmicas feitas pela Luna 9, estudando as características do horizonte para combiná-las com detalhes capturados da órbita. Ele também se apoiou fortemente em um site, o LROC QuickMap, que converte os dados orbitais da LROC em uma superfície semelhante ao Google Street View.
“Um dia, a paisagem pareceu familiar”, escreveu Egorov por mensagem de texto. “Eu ‘olhei ao redor’ e percebi que era o mesmo lugar que a Luna 9 tinha visto.”
Egorov disse estar razoavelmente confiante de que virtualmente tropeçou na área certa. Mas ele não tem certeza de qual pixel exatamente pode ser o reflexo da sonda metálica. “Não descarto um erro de alguns metros”, escreveu.
Confirmar sua descoberta exigirá outra espaçonave, a Chandrayaan-2, um orbitador indiano que viaja acima da Lua desde 2019. Ele tem uma câmera com resolução ligeiramente maior, e cientistas indianos concordaram em coletar imagens da área-alvo de Egorov em março.
Antes do anúncio de Egorov, uma equipe liderada por Lewis Pinault, pesquisador do Centro de Ciências Planetárias da University College London/Birkbeck, apresentou um local diferente para a Luna 9 no mês passado na revista npj Space Exploration.
Pinault e seus colegas desenvolveram um algoritmo de aprendizado de máquina que chamaram de You-Only-Look-Once–Extraterrestrial Artefact (YOLO-ETA). Ele foi treinado com artefatos lunares que já foram localizados em dados da Nasa, como os locais de pouso das missões Apollo.
O sistema sinalizou vários locais candidatos para a Luna 9 a poucos quilômetros das coordenadas oficiais. Um em particular chamou a atenção da equipe. A imagem inclui um pixel brilhante que pode ser a sonda esférica, junto com um par de pontos mais escuros que podem ser as duas metades da cápsula tipo airbag da sonda. A equipe também usou o LROC QuickMap.
“No mínimo, detectamos um artefato desconhecido”, disse Pinault. “Estou muito otimista de que, talvez, possa ser a Luna 9.”
Embora fosse empolgante ter localizado a sonda soviética, o projeto de pesquisa mais amplo de Pinault é detectar artefatos alienígenas na Lua e em outros lugares do sistema solar. Ele espera que seu trabalho ajude a identificar detritos que não pertencem ao espaço ou a outros mundos, um sinal de tecnologias extraterrestres, segundo ele.
“Isso é um pouco da minha obsessão”, disse Pinault, que também é cientista afiliado ao Instituto SETI.
Philip Stooke, professor na Universidade de Western Ontario, rastreou muitos artefatos lunares. Stooke forneceu orientação a ambas as equipes, mas disse que nenhum dos locais forneceu evidências conclusivas da Luna 9.
“As partes do sistema de pouso da espaçonave deveriam ser visíveis —tinha cinco componentes— e normalmente um local de pouso também mostra uma mancha brilhante onde os propulsores sopram a poeira durante o pouso”, disse Stooke por e-mail. “Não estou convencido de que qualquer um desses locais realmente tenha bons candidatos para essas coisas, mas o de Egorov é melhor.”
Jeffrey Plescia, cientista planetário do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins que procurou a Luna 9, também favoreceu ligeiramente a localização de Egorov por causa da correspondência próxima com as características do horizonte no panorama da sonda.
“Acho que ele tem um bom argumento”, disse Plescia. “Mas não sei como você provaria isso sem imagens de maior resolução.”
Arqueólogos espaciais agora aguardam os resultados do orbitador lunar indiano. Se isso não funcionar, talvez tenham que ser pacientes até que outros orbitadores lunares, como a espaçonave Elytra da empresa privada Firefly, sejam lançados em um futuro próximo.
Além de encontrar a Luna 9, observações futuras também podem rastrear sua sucessora virtualmente idêntica, a Luna 13, ou componentes há muito perdidos dos programas Surveyor e Apollo da Nasa.
Os especialistas veem valor em continuar a busca pela Luna 9, nem que seja para valorizar seu legado.
Em 1966, ninguém na Terra tinha certeza de que era seguro pousar na Lua. Alguns propunham que ela era coberta por uma poeira semelhante a areia movediça que engoliria qualquer sonda.
Embora os soviéticos não tenham conseguido colocar seus cosmonautas na Lua, a Luna 9 forneceu a prova concreta que tornou possíveis os seis pousos bem-sucedidos das missões Apollo.
Para Egorov, que foi forçado a deixar a Rússia rumo a Montenegro por se opor à invasão da Ucrânia, a busca pelos restos da Luna 9 é um lembrete das maiores aspirações compartilhadas da humanidade.
“Espero que meu trabalho encoraje pelo menos alguém a olhar para as estrelas, a Lua e Marte, e admirar não apenas sua beleza, mas também nossa capacidade de explorá-los”, disse ele.