O ciclo 2024-2025 da Cátedra Otavio Frias Filho de Estudos em Comunicação, Democracia e Diversidade se encerrou nesta quarta-feira (25) com uma palestra do matemático Marcelo Viana sobre o papel da ciência como motor de desenvolvimento, abordando a questão por ângulos que foram desde o papel dos algoritmos na sociedade à importância da educação.

O matemático lembrou suas visitas recentes ao país asiático e apontou que 50% dos estudantes universitários de lá estão em carreiras do tipo. Mencionou também que os chineses formam a cada ano em torno de 1,3 milhão de engenheiros.

“Para se ter uma ideia, o Brasil possui atualmente 1,2 milhão de engenheiros. Eles estão produzindo um Brasil por ano”, afirmou, acrescentado que dados indicam que as carreiras universitárias nas áreas de ciência, tecnologia e matemática representam 13% do total no Brasil.

Titular da cátedra no ciclo 2024-2025, Viana fez um balanço das discussões levantadas ao longo do ano, centradas em ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento. O matemático assumiu o posto em agosto de 2024 e, desde então, coordenou um conjunto de conferências que buscou examinar como o conhecimento científico se converte —ou deixa de se converter— em prosperidade social e econômica.

Depois de mostrar um vídeo em que uma vendedora de farinha demonstra dificuldades com contas, Viana resumiu da seguinte forma uma ideia que atravessou o ciclo: “Muitas decisões que são tomadas a nosso respeito são tomadas pela matemática. Matemática é poder. Se você dispõe da matemática, você controla esse poder; se não, você é controlado pelo poder. Isso pode ser dito quanto ao indivíduo, mas também sobre nações”.

Para sustentar a tese, citou estudos internacionais acerca do peso das ocupações intensivas em matemática. Na França, levantamento de 2012 indicou que essas profissões correspondiam a 12% do mercado de trabalho e a 16% do PIB; dez anos depois, os números haviam subido para 13% e 18%. No Brasil, estudo do Itaú Social com apoio do Impa apontou que a matemática responde por 4,6% do PIB e 7,6% dos empregos.

“Não só não fiquei triste, como fiquei empolgadíssimo [com os números]”, afirmou. “Isso representa uma enorme oportunidade, temos um caminho indicado para colocar a mão nessa grana.”

Ao desenvolver o argumento da importância da ciência e da matemática, ele revisitou cada palestra que compôs o ciclo. A começar pela conferência de Virgilio Almeida, professor emérito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), sobre a presença dos algoritmos na vida contemporânea.

Viana mostrou um gráfico, trazido pelo pesquisador, que ilustra os jeitos mais comuns de casais se conhecerem ao longo do tempo. As linhas do tempo mostram que formas tradicionais, como a apresentação por amigos, encolheram drasticamente, ultrapassados pelos encontros por meio de plataformas digitais.

“A gente conhece quem os algoritmos querem que a gente conheça”, disse.

O matemático também destacou áreas estratégicas, como a exploração de terras raras. Lembrou dados apresentados por Fernando Lins, que foi diretor do Centro de Tecnologia Mineral, segundo os quais a China detém 49% das reservas mundiais desses minerais críticos, enquanto o Brasil fica com 23%. No entanto, quando se observa a produção, os chineses concentram 69% do total —e o Brasil não aparece entre os principais produtores.

“Estamos no segundo andar de um edifício de dez andares em termos de sofisticação no domínio dessa tecnologia, em particular na produção de ímãs, que é um dos aspectos mais críticos dessa indústria“, disse. “Estamos fornecendo matéria-prima para que a China produza.”

Ele lembrou ainda as conferências de nomes como o matemático Artur Ávila, sobre o processo criativo na matemática, e do pesquisador Mario Veiga Pereira, especialista em transformação energética, entre outros convidados da cátedra.

Em dado momento, Viana sintetizou seu argumento central: “A ciência é importante para o desenvolvimento, a questão agora é como pegamos esse trem”.

Viana mencionou as Olimpíadas de Matemática, que hoje reúnem mais de 23 milhões de estudantes. Apontou, porém, um desequilíbrio de gênero: embora meninas e meninos avancem em proporções semelhantes à segunda fase do torneio, 72,9% dos medalhistas são homens e 24,6%, mulheres —para 2,6%, não há informações.

“Quando eu pergunto o motivo, elas sabem a resposta: dizem que os meninos são mais incentivados, que ninguém as incentiva”, disse ele, que também apontou problemas no ensino superior ao responder a questionamentos da plateia.

“No Brasil, temos 45 mil tipos diferentes de graduação. Dessas, quatro preenchem 27% das matrículas: direito, pedagogia, administração e contabilidade. Todas são perfeitamente respeitáveis. A questão é se o Brasil precisa de 27% de advogados, pedagogos, administradores e contadores.”

Para ele, enfrentar esses e outros desafios é parte da tarefa de transformar a ciência em instrumento efetivo de desenvolvimento.

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