Falhas em foguetes, vazamentos de oxigênio, detritos espaciais e calor escaldante: esses são apenas alguns dos riscos que os astronautas da Artemis 2 da Nasa enfrentam como os primeiros humanos a retornar à Lua em mais de meio século.

Desde que a Nasa tentou pela primeira vez enviar pessoas para além da segurança da Terra, os voos espaciais têm sido uma empreitada que desafia a morte.

A agência sempre lidou com cenários arriscados, desde o incêndio repentino da Apollo 1 em 1967 até os problemas nos propulsores do foguete que recentemente prolongaram a estadia dos astronautas da Boeing Starliner em órbita por meses.

Mas as falhas e os quase acidentes trazem experiência em prever e se preparar para os riscos dos voos espaciais.

“Nunca vamos reduzir o risco a zero nesse tipo de trabalho”, disse Jared Isaacman, administrador da Nasa, em uma entrevista.

Isaacman, que realizou uma caminhada espacial numa missão financiada por ele, disse que alguns riscos valem a pena ser assumidos. “É a maior aventura da história humana. Acho que é absolutamente nosso destino sair e explorar entre as estrelas.”

Apesar de todos os perigos enfrentados pela tripulação da Nasa com destino à Lua, a agência está confiante no trabalho que foi feito para tornar segura a jornada de dez dias na espaçonave Orion.

“Certa vez, brinquei que toda lição já aprendida em voos espaciais tripulados foi incorporada à Orion”, disse Reid Wiseman, 50, comandante da Artemis 2, em um podcast da Nasa sobre a missão. “Cada cabo é um pouco mais grosso do que precisa ser. Cada computador tem mais redundância do que necessita.”

Wiseman acrescentou: “Você precisa desses sistemas redundantes e confiáveis” ao voar para o espaço.

Decolagem e ascensão inicial

A Orion voou no foguete SLS (Space Launch System) da Nasa. Após a missão não tripulada Artemis 1 em 2022, a Artemis 2 é a primeira vez que o foguete voa com astronautas a bordo.

“A segurança da tripulação é literalmente a diretriz principal”, afirmou Carolyn Overmyer, engenheira da Lockheed Martin Space responsável pela integridade técnica da Orion. “O que quer que façamos, a segurança da tripulação é a primeira coisa em que você tem que pensar.”

Os riscos começam antes de deixar o solo. O controle da missão adiou o lançamento da Artemis 1 várias vezes devido a condições climáticas desfavoráveis e problemas técnicos com o foguete, incluindo um vazamento de propelente.

Com astronautas a bordo para a Artemis 2, a Nasa tem um sistema de escape de emergência na plataforma de lançamento para problemas antes da decolagem.

Ele se assemelha a gôndolas de um teleférico de esqui, projetado para a tripulação chegar rapidamente ao solo. Quatro cestas, cada uma do tamanho de um SUV pequeno, podem levar os astronautas por um conjunto de cabos até o perímetro da plataforma de lançamento. Eles podem então embarcar em veículos de emergência e partir.

Em janeiro, a agência relatou que as cestas pararam antes de alcançar o perímetro da plataforma durante um teste. Os técnicos ajustaram os freios.

Mas o maior risco ocorre quando o foguete é lançado e começa sua ascensão.

Em caso de falha do foguete nos primeiros três minutos de voo, a Orion estaria equipada com outro sistema de escape que ejetaria rapidamente a cápsula do foguete.

A Orion então se reorientaria para pousar no oceano Atlântico.

Mais tarde no voo, mas antes de o veículo estar em órbita, a Orion poderia usar seus próprios motores para um propósito semelhante.

Perigos espaciais

Após quase duas horas, a Orion entrou em uma órbita alta acima da Terra, onde a tripulação testou sistemas em voo pela primeira vez. A tripulação realizou uma demonstração de pilotagem voando a cápsula manualmente e simulando uma manobra de acoplamento.

Redundâncias protegem a tripulação durante o voo manual. Se os controles manuais usados para mover a espaçonave apresentarem mau funcionamento do lado do piloto, o comandante pode assumir. Quatro painéis solares alimentam os eletrônicos da Orion, embora ela possa operar totalmente com apenas dois. Três telas sensíveis ao toque fornecem dados de voo à tripulação, e um dispositivo de controle de cursor permite que os astronautas interajam com o software quando suas mãos não conseguem alcançar as telas.

Também é o primeiro teste em voo dos sistemas de suporte à vida da Orion, que mantêm a cápsula habitável para os astronautas no espaço. Isso inclui monitorar e manter temperatura, umidade e pressão, além de fornecer oxigênio à cabine e remover dióxido de carbono dela.

“Testamos exaustivamente em solo”, disse Overmyer. “Mas é a primeira vez que estamos voando com ele.” Os sistemas são testados enquanto em órbita terrestre, o que dá aos astronautas uma saída acessível de volta para casa, caso algo dê errado antes de partirem para a Lua.

Sistemas de backup existem para controlar temperatura, pressão e níveis de oxigênio caso surjam emergências no suporte à vida.

O impacto com pequenos meteoroides ou fragmentos de detritos de satélites representa outra preocupação, embora as chances sejam baixas. Mesmo objetos com menos de cerca de dez centímetros podem causar danos graves a uma espaçonave. Em novembro passado, a China adiou o retorno de três astronautas após descobrir uma rachadura em uma janela que especialistas suspeitam ter sido causada por tal impacto.

Se tudo mais falhar, os astronautas podem vestir seus trajes espaciais, que são projetados para mantê-los vivos por até seis dias, fornecendo ar e mantendo a pressão. A camada externa dos modelos também é resistente ao fogo.

No segundo dia de voo, o motor da Orion enviou a cápsula em direção à Lua. Oito motores auxiliares podem realizar todos os impulsos e manobras da Orion como backup do motor principal. Mas a trajetória também é o que os engenheiros chamam de “retorno livre”, outra medida de segurança que garante que a Orion voltará para casa deslizando pela gravidade da Lua e da Terra, sem necessidade de combustível.

A Orion está programada para perder contato com a Terra por 30 a 50 minutos quando viajar atrás da Lua, que bloqueará os sinais de e para a espaçonave. O controle da missão em solo enviará os dados de navegação mais recentes para a tripulação logo antes dessa etapa para auxiliar o retorno da cápsula caso a tripulação não consiga restabelecer as comunicações.

Sobrevivendo ao calor

Levará cerca de quatro dias para os astronautas da Artemis 2 retornarem para casa após sua volta ao redor da Lua. Ao reentrar na atmosfera terrestre, a Orion correrá em direção à superfície a mais de 32 mil km/h, suportando temperaturas próximas a 2.760°C antes de pousar na costa de San Diego.

O escudo térmico da Orion é uma das medidas de segurança mais importantes da missão. Feito de material que transfere o calor para longe da espaçonave, o escudo passou por mais de mil testes em solo antes de ser usado no espaço com a Artemis 1 em 2022.

Danos ao escudo térmico durante essa missão motivaram investigações da Nasa e de especialistas independentes, incluindo 23 meses de testes adicionais.

“Vamos garantir que estamos permanecendo dentro dos limites do hardware”, disse Jeff Radigan, diretor de voo líder da Artemis 2, durante uma entrevista coletiva sobre a missão em janeiro. “Essa é a coisa certa a fazer para manter nossa tripulação segura.”

Uma vez através do calor da atmosfera terrestre, paraquedas serão acionados automaticamente para desacelerar a cápsula antes de ela pousar na água. Pousar no oceano proporciona um amortecimento mais suave do que o solo. Airbags ao redor do topo da Orion inflarão para manter a cápsula na posição vertical após o pouso na água.

Se a tripulação precisar deixar a Orion repentinamente e cair no oceano antes que uma equipe de resgate chegue, seus trajes são laranja brilhante para serem facilmente identificáveis na água. Eles também estão equipados com kits de sobrevivência.

Na entrevista coletiva em janeiro, os diretores da missão enfatizaram seu compromisso em trazer a tripulação para casa em segurança.

“Eu tenho um trabalho, e é o retorno seguro de Reid, Victor, Christina e Jeremy”, disse John Honeycutt, que lidera a equipe de gerenciamento da missão Artemis 2, sobre os astronautas. “Considero isso um dever e uma confiança. E é algo que pretendo cumprir até o fim.”

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