As doenças emergentes ou já conhecidas que os morcegos acabam espalhando para outras espécies podem ser combatidas com métodos não invasivos de vacinação, indica um estudo conduzido por cientistas chineses. A abordagem da equipe se aproveita dos hábitos alimentares naturais dos mamíferos voadores para imunizá-los sem que seja preciso capturar os bichos.
Para isso, os pesquisadores adotaram dois truques: infectar mosquitos com vírus atenuados e modificados, para que eles fossem comidos pelos morcegos ou os picassem; e também despejar os vírus numa solução salina que pudesse ser lambida pelos animais. Em ambos os casos, o resultado foi animador, com os morcegos desenvolvendo a imunidade desejada.
A pesquisa, aliás, teve participação de pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan, justamente a cidade chinesa onde a pandemia de Covid-19 começou, e onde vírus derivados de morcegos, incluindo parentes do causador dessa doença, são estudados há vários anos. (Não há indícios claros de ligação entre o laboratório e o início da pandemia –é muito mais provável que os primeiros casos tenham surgido no mercado de animais selvagens da cidade.)
Um dos coordenadores do estudo, Chao Shan, é do centro de pesquisas em Wuhan, enquanto o outro, Aihua Zheng, é ligado ao Instituto de Zoologia da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim. A dupla e seus colegas publicaram os resultados de seus experimentos na última quarta-feira (11) na revista especializada Science Advances.
A equipe se concentrou, de início, em duas doenças virais: a raiva, reconhecidamente um dos grandes problemas de saúde pública ligados ao contato com morcegos; e a infecção causada pelo vírus Nipah, doença emergente do sul e do sudeste da Ásia que pode desencadear encefalite (inflamação do cérebro) e morte em grande parte dos casos em humanos.
Shan, Zheng e seus colegas apostaram em estratégias que pudessem levar algum tipo de imunizante aos morcegos sem que fosse preciso dar injeções nos animais –o que envolveria estratégias de captura perigosas tanto para os morcegos quanto para seres humanos, além de bastante custosas.
Por outro lado, diversas espécies desses mamíferos voadores costumam ser alimentar de insetos, inclusive mosquitos, e/ou são picadas por eles. Além disso, tal como acontece com muitos outros animais selvagens, os morcegos precisam achar fontes naturais de sal para obter minerais, em especial o sódio. Como essas fontes de sal não são muito comuns, a presença delas costuma atrair morcegos em boa quantidade, fazendo com que elas sejam um excelente local para colocar uma vacina por via oral.
Ambas as abordagens foram testadas em laboratório. Antes disso, porém, em vez de trabalhar diretamente com os vírus Nipah e da raiva, os pesquisadores modificaram geneticamente outro patógeno (causador de doenças) viral. Trata-se do VSV (vírus da estomatite vesicular), que produz sintomas muito mais leves, como lesões na boca, e cujos efeitos somem em pouco tempo.
O importante, porém, é que ele também pode ser transmitido pela picada de mosquitos, o que transforma o VSV no cavalo de troia ideal para carregar uma pequena parte do material genético dos vírus letais –o suficiente para produzir imunidade contra eles nos morcegos, esperavam os pesquisadores. Por outro lado, para evitar que os mosquitos espalhassem o vírus de forma descontrolada pelo ambiente, os pesquisadores usaram radiação para esterilizá-los.
Os dois métodos de imunização, com os dois vírus, inicialmente foram testados em animais de laboratório, como camundongos e hamsters, em ambos os casos com resultados animadores –mesmo cobaias que receberam o vírus da raiva diretamente no cérebro, por exemplo, não desenvolveram a doença.
O mesmo êxito se verificou com morcegos em viveiros. Tanto os que tiveram contato com os mosquitos, seja sendo picados por eles, seja comendo-os, quanto os que lamberam a solução salina com o vírus modificado e atenuado, também desenvolveram imunidade contra as doenças.
No último teste, a equipe chinesa levou a solução salina, ou seja, a vacina por via oral, para uma caverna com população residente de morcegos. Na bebida salgada eles colocaram também um antibiótico, que seria usado como marcador do consumo. Depois, coletaram as fezes dos bichos.
Verificaram, assim, que grande parte dos animais da caverna estava consumindo a vacina oral, a julgar pela presença de antibióticos nas fezes deles, e que eles também estavam desenvolvendo anticorpos contra raiva (a formulação contra o vírus Nipah não chegou a ser testada por esse método).
A equipe propõe agora um teste de campo mais amplo, usando uma série de salvaguardas (como ventiladores e inseticidas nas casas de moradores da zona rural) para evitar que os mosquitos se espalhem sem que haja comprovação da segurança e eficácia da abordagem.