A história de um macaco-japonês (Macaca fuscata) de sete meses chamado Punch viralizou em razão da comovente busca do animal por companhia.

Após ser abandonado pela mãe e rejeitado pelo resto do bando, os tratadores do Zoológico da Cidade de Ichikawa, no Japão, deram a Punch um orangotango de pelúcia. Vídeos do macaco agarrado ao brinquedo viralizaram em todo o mundo.

Mas o apego ao seu companheiro inanimado não é apenas o tema de um vídeo comovente. Ele remete à história de uma famosa série de experimentos psicológicos conduzidos na década de 1950 pelo pesquisador norte-americano Harry Harlow.

As conclusões de suas experiências sustentam muitos dos princípios centrais da teoria do apego, que posiciona o vínculo entre pais e filhos como crucial para o desenvolvimento infantil.

Quais foram as experiências de Harlow?

Harlow pegou macacos-rhesus recém-nascidos e os separou de suas mães. Esses espécimes foram criados em um recinto no qual tinham acesso a duas “mães” substitutas.

Uma era uma gaiola de arame com a forma de uma macaca “mãe”, que podia fornecer comida e bebida por meio de um pequeno comedouro.

A outra era uma boneca em forma de macaco envolta em tecido felpudo. Essa boneca era macia e confortável, mas não fornecia comida nem bebida; era pouco mais do que uma figura peluda à qual o filhote de macaco podia se agarrar.

Portanto, temos uma opção que proporciona conforto, mas não oferece comida nem bebida, e outra que é fria, dura e áspera, mas que fornece sustento alimentar.

Essas experiências foram uma resposta ao “behaviorismo“, que era a visão teórica predominante na época.

Os behavioristas sugeriram que os bebês formam laços afetivos com aqueles que lhes fornecem suas necessidades biológicas, como comida e abrigo.

Harlow desafiou essa teoria, sugerindo que os bebês precisam de cuidados, amor e gentileza para formar laços afetivos, não apenas de alimentação física.

Um behaviorista esperaria que os macacos bebês passassem todo o tempo com a “mãe” de arame que os alimentava.

Na verdade, não foi isso que aconteceu. Os macacos passavam significativamente mais tempo por dia agarrados à “mãe” de tecido felpudo.

As experiências de Harlow na década de 1950 estabeleceram a importância da suavidade, do cuidado e da gentileza como base para o apego. Harlow mostrou que, quando têm a oportunidade, os bebês preferem o alimento emocional ao alimento físico.

Como isso influenciou a teoria moderna do apego?

A descoberta de Harlow foi significativa porque reorientou completamente a visão comportamentalista dominante da época. Essa visão dominante sugeria que os primatas, incluindo os seres humanos, funcionavam em ciclos de recompensa e punição e formavam laços afetivos com quem satisfazia suas necessidades físicas, como fome e sede.

O alimento emocional não fazia parte do paradigma behaviorista. Então, quando Harlow fez seus experimentos, ele virou a teoria predominante de cabeça para baixo.

A preferência dos macacos pelo alimento emocional, na forma de abraçar a “mãe” substituta coberta por uma toalha felpuda, formou a base para o desenvolvimento da teoria do apego.

A teoria do apego postula que o desenvolvimento saudável da criança ocorre quando ela está “seguramente apegada” ao seu cuidador. Isso é alcançado quando os pais ou cuidadores fornecem nutrição emocional, cuidado, gentileza e atenção à criança. O apego inseguro ocorre quando os pais ou cuidadores são frios, distantes, abusivos ou negligentes.

Assim como os macacos-rhesus, você pode alimentar um bebê humano com tudo o que ele precisa, dar-lhe toda a nutrição alimentar necessária, mas, se não lhe proporcionar carinho e amor, ele não vai formar um vínculo com você.

O que podemos aprender com Punch?

O zoológico não estava realizando um experimento, mas a situação de Punch reflete inadvertidamente o experimento controlado que Harlow fez. Portanto, a configuração experimental foi imitada em um ambiente mais natural, mas os resultados parecem muito semelhantes.

Assim como os macacos de Harlow preferiram sua mãe de tecido felpudo, Punch formou um apego ao seu companheiro de pelúcia da IKEA.

Agora, o que não temos na situação do zoológico é a comparação com uma opção severa, mas que fornece nutrição física.

Mas, claramente, não era isso que o macaco procurava. Ele queria um lugar reconfortante, macio e seguro, e era isso que o brinquedo lhe proporcionava.

As experiências de Harlow foram éticas?

Atualmente, a maior parte do mundo reconhece que os primatas têm direitos que, em alguns casos, são equivalentes aos direitos humanos.

Hoje, consideraríamos as experiências de Harlow cruéis e desumanas. Você não tiraria um bebê humano de sua mãe para fazer esse experimento, então não devemos fazer isso com primatas.

É interessante ver as pessoas tão fascinadas por esse paralelo com um experimento realizado há mais de 70 anos.

Punch, o macaco, não é apenas a mais recente celebridade animal da internet —ele é um lembrete da importância do alimento emocional.

Todos nós precisamos de espaços acolhedores. Todos nós precisamos de espaços seguros. O amor e o carinho são muito mais importantes para o nosso bem-estar e funcionamento do que apenas a alimentação física.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original

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