“É surpreendente quanto os bebês parecem entender sobre moralidade. E parece que eles têm esse senso antes mesmo de completar um ano de vida.” Dessa forma, o psicólogo Paul Bloom, professor da Universidade Yale (Estados Unidos), justificou o que o levou a estudar bebês.

Desde o início dos anos 2000, Bloom e sua equipe no Laboratório de Mente e Desenvolvimento do Departamento de Psicologia de Yale —em conjunto com sua colega e esposa, Karen Wynn— realizam experimentos com bebês de até um ano e meio para entender o que faz alguns deles, de forma aparentemente inata, julgar atitudes, personagens e até aceitar punições para aqueles que são injustos com outros.

“Existe um grande escopo de pesquisas que sugerem que os bebês têm algum conhecimento sobre moralidade. E isso não é surpreendente? Muitas pessoas dizem acreditar que a moral é uma invenção cultural, mas acho que é um caráter evolutivo”, diz ele, que é autor do livro “O que nos Faz Bons ou Maus” (Editora BestSeller, 2017).

Por muitos séculos, os pesquisadores buscaram entender o que diferencia os seres humanos de outras espécies animais. Um dos argumentos que nos colocavam como “superiores” é o nosso senso de moral (julgar o que é certo e errado e viver conforme essas regras) e justiça (punir aqueles que fazem ações ou têm comportamentos fora da nossa moral).

Mas o primatólogo Frans de Waal registrou sensos de justiça e moral em chimpanzés e bonobos, o que leva a crer que a moralidade é, de certa forma, um caráter evolutivo na nossa linhagem.

Foi partindo dessa premissa que Bloom e sua equipe resolveram investigar os bebês. “Eles são particularmente interessantes porque ainda não foram influenciados pela cultura e por tudo aquilo que é parte da nossa construção em sociedade.”

Em um dos experimentos, Bloom e sua equipe fizeram uma peça com fantoches. Nela, um boneco era “bom” –distribuía igualmente um brinquedo ou comida aos demais– e outro, “mau” –deixava um personagem sem nenhum brinquedo enquanto o outro ganhava tudo. Bebês de cinco meses “escolhiam” o personagem bom em quase todas as vezes.

Similarmente, em um experimento em que um personagem tentava abrir uma caixa, mas não conseguia, um fantoche (“bom”) ajudava, enquanto o outro (“mau”) atrapalhava. Resultado: bebês de 6 a 10 meses preferiam o fantoche bom. Além disso, entendiam que o fantoche que inicialmente atrapalhou não merecia ajuda, mais tarde, quando também enfrentava dificuldades. “Descobrimos em nossos estudos que os bebês sistematicamente tendem a escolher o personagem bom, não o mau”, diz o psicólogo.

A partir desses experimentos é possível inferir, de acordo com Bloom, que parte da nossa empatia evoluiu juntamente com a nossa espécie e que ser “bom” seria vantajoso evolutivamente, não apenas pensando na sobrevivência individual. “Os biólogos evolutivos dizem que a biologia é a única coisa que está por trás disso, que só fazemos o bem para poder propagar os nossos genes. Mas essa é só uma parte da história. A segunda parte é mais complicada, porque entendo a premissa de cuidar e ter empatia com os nossos descendentes, mas por que ajudamos completos estranhos?”

Como nos bebês o senso de expectativa ainda não foi construído, eles seriam os objetos perfeitos para apontar uma direção de um senso de moral antes de sofrer influências culturais.

“E talvez a resposta evolutiva seja porque nós somos melhor como espécie quando nos ajudamos uns aos outros. Se você precisar de ajuda e eu te ajudar, amanhã eu posso precisar de ajuda e você vai retribuir. Isso explica ma parte”, afirma o pesquisador.

“Também pode ser porque se não ajudarmos alguém que está com dificuldade, outras pessoas podem nos julgar e vamos ser excluídos. Isso também pode ser verdade. A realidade é mais complicada, e acho que não sabemos ainda. Parte disso é biológico, parte é cultural.”

É nesse sentido que os prejulgamentos, preconceitos e outros comportamentos que surgem depois na vida são considerados efeitos culturais moldados a partir das nossas próprias realidades e percepções da vida. “Muitos dos nossos desejos, inclinações e sentimentos são moldados pela cultura, não são programados. Os estudos com bebês frequentemente os colocam em circunstâncias onde descobrimos seus julgamentos sobre coisas que eles não teriam como ter experimentado antes. E isso torna mais plausível, não estou dizendo que é prova definitiva, mas é plausível que isso seja evolução biológica, não cultural.”

Como vivemos em uma sociedade onde a reputação também importa, isso pode ter influenciado a forma como atendemos aos chamados de ajuda. “Eu acredito que o altruísmo verdadeiro, cuidar dos outros sem qualquer pensamento de recompensa, é algo real, mesmo que, em sua base, evolutivamente, seja egoísta no sentido de propagar os genes. Portanto, há uma diferença entre o que os biólogos chamam de causa final, que é a história evolutiva, e a causa proximal, que é a história que acontece em nossas mentes.”

Mas, então, como saber se “seremos bons ou maus”? Ao ser perguntado se pais de primeira viagem o procuram para fazer essa pergunta, o pesquisador diz que não há uma resposta para isso.

“Eu adoraria que tivesse, porque assim eu teria me tornado rico, como um coach de bebês. Mas a verdade é que não temos como saber, não dá para afirmar o que é ‘ser moralmente correto’. O que nossos experimentos apontam é que há uma direção, mas, se um bebê não passa no nosso teste, aos nove meses de idade, não quer dizer que ele é alheio à empatia. Eles são simplesmente bebês. E acho que os pais podem se beneficiar de simplesmente buscar entender o que eles pensam, o que está passando na cabeça deles, como eles decidem as suas ações pelos próximos anos.”

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