Em 1894, o fisiologista Étienne-Jules Marey (1830-1904) tentou entender por que os gatos sempre parecem cair de pé. Com o uso de vídeos, o francês conseguiu demonstrar que os bichanos, quando soltos de uma altura, eram capazes de se endireitar no ar.

A descoberta chocou a comunidade científica, mas o mistério de como eles conseguem tal façanha permaneceu sem resposta.

Em um artigo publicado no mês passado na revista The Anatomical Record, pesquisadores ofereceram uma nova perspectiva sobre o tema. As evidências sugerem que os gatos possuem um segmento muito flexível em suas colunas vertebrais que lhes permite corrigir sua orientação no ar.

O físico Greg Gbur, especialista em queda de gatos e ligado à Universidade da Carolina do Norte em Charlotte (Estados Unidos), disse que a pesquisa foi a primeira, que ele conheceu, a explorar “o que a estrutura da coluna vertebral do gato nos revela sobre como ele se vira durante a queda”.

Segundo Gbur, que não participou do estudo, o trabalho identificou detalhes notáveis sobre como os gatos manobram enquanto caem.

Parte da dificuldade de entender o porquê das habilidades acrobáticas desses felinos é que a anatomia deles não foi estudada em detalhes, na avaliação do fisiologista Yasuo Higurashi, da Universidade de Yamaguchi (Japão). Ele é o autor principal do novo estudo.

“Físicos tentaram modelar o comportamento em equações relativamente simples”, disse o zoólogo Ruslan Belyaev, do Instituto Severtsov de Ecologia e Evolução em Moscou (Rússia), que não participou do estudo. Porém, acrescentou ele, “o gato de verdade” não é nada simples.

Pesquisas modernas dividiram o problema em dois modelos.

O primeiro —”pernas para dentro, pernas para fora”— sugeriu que os gatos corrigem sua trajetória de queda primeiro estendendo os membros traseiros antes de retraí-los, usando uma torção sequencial do tronco superior e depois do inferior para alcançar a postura adequada durante a queda livre.

O segundo —”encolher e girar”— apontou que eles giram a parte superior e inferior do corpo em movimentos simultâneos e contrapostos.

No novo estudo, Higurashi e seus colegas examinaram diferentes segmentos da coluna vertebral de cadáveres de gatos doados. Além disso, realizaram experimentos de queda, de uma altura de cerca de 90 centímetros, com dois gatos vivos.

“Para evitar lesões, colocamos uma almofada grossa e macia no local de aterrissagem”, disse Higurashi.

A equipe construiu, ainda, um dispositivo para testar fisicamente a flexibilidade das colunas vertebrais. Após removerem as colunas dos cadáveres, eles dobraram e contorceram sistematicamente seções de vértebras com garras mecânicas enquanto mediam o quanto elas rotacionavam.

Os pesquisadores compararam as observações com as filmagens dos gatos vivos. As gravações foram analisadas quadro a quadro.

Eles chegaram à conclusão de que a coluna vertebral felina é extremamente flexível nas vértebras torácicas superiores, porém mais rígida e pesada nas vértebras lombares inferiores.

A descoberta corresponde às evidências em vídeo que mostram os gatos primeiro girando as patas dianteiras e depois as traseiras. Os resultados sugerem que o gato gira rapidamente seu torso superior flexível para ficar de frente para o chão, permitindo que ele veja e assim possa torcer corretamente o resto do corpo para acompanhar o movimento.

“A coluna torácica do gato pode girar como nosso pescoço”, afirmou Higurashi.

Experimentos na coluna vertebral mostram que as vértebras superiores podem girar impressionantes 360 graus, segundo o pesquisador, o que ajuda os gatos a fazer esses movimentos de correção com facilidade.

Os resultados são consistentes com o modelo “pernas para dentro, pernas para fora”. No entanto, determinar definitivamente qual modelo está correto exigirá mais trabalho, de acordo com Higurashi.

A pesquisa também sugere que os gatos, como muitos animais, parecem ter uma preferência pelo lado direito. Um dos gatos soltos se corrigiu virando para a direita em todas as oito vezes em que foi solto no ar, enquanto o outro virou para a direita em 6 de 8 vezes.

Embora o estudo não resolva o problema do gato em queda, Belyaev disse que ele forneceu “ideias para os físicos sobre como ajustar seus modelos mecânicos para corresponder melhor às propriedades reais de um gato”.

Em pesquisas futuras, Higurashi e seus colegas planejam coletar mais dados sobre gatos em queda para construir modelos matemáticos e 3D atualizados. Talvez esses modelos desvendem o mistério.

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