Envelhecer é normal, e é esperado. Nós, humanos, envelhecemos há milhões de anos e ainda não entendemos bem por que algumas pessoas chegam aos 100 anos, enquanto outras não. Por definição, envelhecer é “reduzir a complexidade” de tecidos e órgãos, o que acarreta maior vulnerabilidade para doenças. Ainda assim, todo mundo conhece uma pessoa no auge dos seus 80 anos com uma memória incrível e sem doenças crônicas.
Seriam apenas os genes os responsáveis por essa vitalidade? À medida que a medicina avança, percebemos como o envelhecimento é um somatório de tudo que fizemos, dos hábitos bons ou ruins que cultivamos. Se você teve uma infância feliz, se teve acesso a comida de qualidade e natural, se foi incentivado a fazer atividade física desde os primeiros anos de vida, se escolheu um parceiro que acolhe e suporta suas decisões: tudo isso se reflete em nossa saúde —não imediatamente, mas anos depois.
As escolhas de hoje moldam o futuro com uma intensidade muito mais forte do que imaginávamos. A conta de fumar, beber, ficar sedentário, trabalhar em um local ruim, viver sob estresse vai chegar, inevitavelmente, se refletindo em nosso “relógio biológico”, que pode ou não acompanhar nosso “relógio cronológico”.
O cálculo é quase matemático: se os hábitos foram bons ao longo da vida, o relógio biológico é mais lento que o cronológico. Uma pessoa de 80 anos pode ter um cérebro de 60, mas pode acontecer o oposto, e um sujeito de 80 anos pode ter um cérebro de 90. Algumas pessoas desenvolvem doença de Alzheimer, por exemplo, mais cedo que outras, e uma das explicações possíveis para isso é que seu cérebro envelheceu mais depressa.
Mas o que acontece exatamente no cérebro? O que faz com que ele seja mais ou menos velho? Ninguém sabe ao certo. Um ponto crucial a ser considerado, porém, é a relação entre o vaso sanguíneo e o astrócito, uma importante célula de defesa do cérebro. Todo astrócito é dotado de “pés vasculares”, prolongamentos que envolvem os vasos sanguíneos cerebrais para filtrar as substâncias tóxicas que podem sair do vaso e atingir o cérebro. Esse mecanismo de defesa é a chamada “barreira hematoencefálica”.
Recentemente, descobriu-se que o astrócito é um dos responsáveis por iniciar o processo patológico da doença de Alzheimer, a maior causa de perda de memória em idosos, inimiga número 1 do envelhecimento cerebral saudável. A partir de tal descoberta, levantou-se a hipótese de que esses mesmos astrócitos seriam os responsáveis por proteger tão bem o ambiente cerebral de pessoas cujo cérebro reluta em envelhecer.
Existe uma orquestra cerebral com vários músicos envolvidos —neurônios, células inflamatórias, vasos sanguíneos, substâncias nocivas, lesões eventuais. Aparentemente, esse meio ambiente cerebral se torna mais vulnerável se nossos hábitos são ruins, pois eles geram uma cascata inflamatória que destrói lenta e progressivamente o ambiente cerebral, com lesões contínuas em neurônios e células de defesa.
O resultado? A destruição da orquestra e o silenciamento da música: atrofia cerebral e perda daquelas funções cerebrais. Como será que nossos hábitos, que sabidamente fazem viver mais, ajudam a moldar e reforçar o poder da nossa neuroproteção dos astrócitos? Isso ainda não sabemos, mas uma coisa é certa: o seu futuro começa com as decisões de hoje.
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