A estatal Ceitec nasceu como a esperança do Brasil de tornar-se o primeiro país a fabricar chips na América Latina. Criado oficialmente pelo governo em 2008, o chamado Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada desenvolveu capacidade para fabricar semicondutores de 350 nanômetros.

Não seriam os top de linha produzidos em Taiwan para operar os modelos de inteligência artificial, hoje na geração de 3 nanômetros e disputados na guerra tecnológica entre a China e os Estados Unidos. Ainda assim, produziria chips de tecnologia madura, ainda muito usados em automóveis, eletrônicos e sensores.

Mas a Ceitec nunca chegou a fabricá-los de verdade. A empresa fazia o design dos equipamentos, enviava para fora do país para fabricação, para as chamadas foundries (fundição), e os importava de volta para o encapsulamento, uma espécie de empacotamento.

Até hoje, o Brasil domina apenas duas das três etapas da produção de semicondutores. A primeira é o design, processo de projetar os chips para desempenharem determinadas funções. O país conta com oito empresas capacitadas, entre elas a Chipus e a EnSilica.

E há nove do chamado back-end, que fazem a testagem e o encapsulamento dos chips, a grande maioria no segmento de memórias –estão entre elas empresas como a Zilia Technologies, HT Micron, Multilaser, CalComp e Adata.

O Brasil não tem o front-end, que é a fabricação dos chips, ainda restrita a países como Taiwan, Coreia do Sul e China, no caso dos mais avançados, e União Europeia, EUA, Japão, Singapura e Israel.

A Ceitec, estatal de semicondutores com sede em Porto Alegre, teve anos de prejuízos. Entrou em processo de liquidação no governo Bolsonaro e foi resgatada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Agora, a Ceitec se prepara para uma guinada –desistiu de fabricar os semicondutores de silício e está investindo em chips de potência de carbeto de silício, usados em veículos elétricos e painéis fotovoltaicos. São chips de uma cerâmica sintética de carbono e silício, com maior resistência a altas temperaturas e tensões elétricas, dissipação de calor eficiente e menor perda de energia.

“Vimos que não seria realista investir na fabricação de semicondutores de silício, chips de memória para computadores e celulares, porque ia requerer um investimento maciço do Estado”, diz Augusto Gadelha, presidente da Ceitec. “Optamos por uma tecnologia nova, que está crescendo.”

Atualizar a fábrica da Ceitec para produzir semicondutores de silício de cerca de 50 a 100 nanômetros, para os quais existe amplo mercado, exigiria investimento de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões). Para carbeto de silício, US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão), nas contas de Adão Villaverde, professor de gestão do conhecimento e da inovação da Escola Politécnica da PUC-RS.

A tecnologia é considerada madura, já está na sua terceira geração, e a estatal fez acordos com empresas chinesas para transferência de know-how. Atualmente, países como China, Alemanha e Estados Unidos já fabricam esses chips de potência.

Em dezembro de 2024, a Ceitec recebeu um aporte de R$ 220 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A fábrica está mudando seu layout, e os novos equipamentos estão em processo de importação e devem chegar neste ano. A previsão é começar a fabricar os chips de carbeto de silício no segundo semestre de 2026.

“Os semicondutores de potência de carbeto de silício são um produto de menor tecnologia agregada e, portanto, demandam investimento menor; mas eles têm muito valor agregado e são muito necessários para a transição energética”, diz Rogério Nunes, presidente da Abisemi, a associação que reúne as indústrias da cadeia de semicondutores.

Dentro do governo, muitos admitem que o antigo sonho de ter uma fábrica de chips de silício no Brasil dificilmente vai se materializar.

“Não adianta alguém fazer uma apresentação de PowerPoint dizendo que vai dar para fabricar semicondutores de silício no Brasil. Seriam necessários bilhões de dólares de investimento”, diz Henrique Miguel, Secretário de Transformação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Na Índia, a Tata Electronics está injetando US$ 12 bilhões para construir sua foundry, com bilhões em incentivos do governo indiano. Em parceria com a taiwanesa Powerchip Semiconductor Manufacturing Corporation (PSMC), a unidade irá fabricar semicondutores de 28 a 110 nanômetros.

O governo Biden ofereceu US$ 6,6 bilhões em subsídios e US$ 5 bilhões em créditos para a taiwanesa TSMC montar uma fábrica de chips avançados no Arizona.

“O Brasil não tem condições de dar subsídios desse tamanho”, diz Uallace Moreira, secretário de Desenvolvimento Industrial e Inovação do Ministério do Desenvolvimento.

Mas a ausência de uma foundry não é, necessariamente, um problema. Em vez disso, o Brasil poderia impulsionar mais o design e back-end de chips no país.

“Nesses dois elos, temos um potencial muito grande”, diz Moreira.

Rogério Nunes, sócio-fundador da empresa mais antiga, a Zillia Technologies, diz que o Brasil tem muito espaço para crescer –as 20 empresas associadas à Abisemi faturaram US$ 1 bilhão em 2024, em um mercado global de US$ 626 bilhões.

As empresas de encapsulamento no Brasil fornecem cerca de 35% das memórias usadas nos celulares brasileiros, que são 40 milhões de aparelhos por ano, diz Nunes. Por ano, a indústria nacional encapsula 200 milhões de chips, especialmente de memória, para uso principalmente telefones e computadores.

Segundo Ricardo Reis, professor no Instituto de Informática da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o Brasil tem uma vantagem competitiva para o design de chips. “No mundo, faltam pessoas com capacidade para fazer projetos de chips e automação, e nós temos gente de altíssima qualidade, com formação muito boa”, diz.

Quando o ex-presidente Jair Bolsonaro tentou fechar a Ceitec, empresas do exterior contrataram a mão de obra qualificada da estatal e muitos foram trabalhar no Vale do Silício e no Reino Unido.

Para evitar nova evasão de talentos, é necessário ter mudanças nos currículos das universidades, com mais ênfase em semicondutores, e formar mão de obra especializada em grandes quantidades para atrair mais empresas para o Brasil e criar startups locais, diz Reis.

O governo lançou em 2024 o programa BrasilSemicon, que amplia e atualiza o PADIS (Programa de Apoio aos Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores). O BrasilSemicon prevê incentivos de R$ 7 bilhões ao ano para a cadeia de semicondutores. A legislação reduz tributos sobre insumos, dá incentivos para empresas de design, para qualificação de projetistas e para diversificação do back-end, hoje muito focado em chips de memória. “Podemos aproveitar a tecnologia de encapsulamento de chips de memória para sensores”, diz Miguel.

Ainda que não tenha cacife para competir com os países mais ricos, o Estado brasileiro precisa aumentar investimentos na cadeia de semicondutores no país, segundo especialistas e empresários do ramo.

Governos mantêm subsídios e incentivos fiscais no mundo para essa indústria, considerada estratégica para segurança nacional.

O Chips Act americano, assinado em 2022, previa US$ 52 bilhões de incentivos e subsídios a empresas do setor. O presidente Donald Trump aumentou ainda mais o envolvimento do governo na cadeia de semicondutores, anunciando a compra de uma participação na Intel.

Desde 2014, o governo chinês criou três fundos de investimentos com apoio estatal com um total de US$ 95,4 bilhões em recursos para estimular o setor de semicondutores. E o European Chip Act, anunciado em 2023, propõe investimento de 43 bilhões de euros (US$ 50 bilhões, cerca de R$ 260 bilhões) até 2030.

“Em todos os países onde a indústria de semicondutores decolou, há investimento maciço do Estado”, diz Villaverde.

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