Um futuro possível: paciente chega à clínica para sessão de terapia psicodélica e, na enfermaria, colocam em sua cabeça uma fita com alguns poucos eletrodos. Em segundos o eletroencefalograma analisado por inteligência artificial indica que ondas beta estão muito altas.
Já no consultório, o terapeuta lhe explica, com base no resultado do EEG, que a programada aplicação de DMT pode resultar numa experiência penosa. “Quer voltar amanhã?”—pergunta o especialista.
O exercício de imaginação está muito distante da realidade, talvez uma década. Mas a possibilidade de prever viagens ruins se tornou plausível após estudo do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN) publicado em dezembro no periódico Journal of Psychopharmacology.
O trabalho de Jéssica Andrade Pessoa e Natan Silva Costa tratou de ayahuasca, na realidade. Participaram 50 voluntários saudáveis que nunca tinham tomado o chá amazônico contendo o psicodélico dimetiltriptamina (DMT) desencadeador das famigeradas “mirações” (metade deles ingeriu placebo no estudo duplo cego).
Os dados foram colhidos uma década atrás para o mestrado de Pessoa, mas, após a defesa da dissertação em 2017, ninguém mais se debruçou sobre eles. Anos depois chegou ao ICe a alemã Isabel Wiessner, uma especialista em EEG e escalas psicométricas que havia investigado na Unicamp impactos cognitivos do LSD, e as observações com ayahuasca foram então ressuscitadas dos discos rígidos.
Pesquisadores empregam tais escalas, em geral questionários para o participante assinalar ou graduar vários quesitos, com o objetivo de esmiuçar a qualidade da experiência psicodélica (“viagem”). Com ela se mede a intensidade da experiência mística deflagrada, por exemplo, ou quantidade e força de visões induzidas pelo composto psicoativo.
Com o EEG se examinaram quatro tipos de ondas cerebrais em várias regiões do cérebro: ondas delta, as mais lentas (1 a 4 Hertz de frequência); teta (4 a 7 Hz); alfa (7 a 14 Hz); e beta (14 a 30 Hz). Realizou-se o experimento para estabelecer se haveria correlações entre os aspectos subjetivos da viagem com essas ondas medidas antes (linha de base) ou após a experiência psicodélica (2 h e 4 h depois).
As ondas mais lentas estão associadas com sono, inconsciência e mesmo meditação. Ondas alfa se apresentam quando a pessoa está relaxada, talvez de olhos fechados, mas acordada, e são as que mais se alteram durante o efeito psicodélico. Frequências beta caracterizam a consciência normal.
Um achado que intrigou Wiessner foi uma correlação observada entre a diminuição de ondas teta, durante a viagem, com intensas percepções místicas –como sentir-se unido com o Cosmos ou em contato com o divino– reportadas no preenchimento da escala psicométrica MEQ (questionário de experiência mística, em inglês).
Houve diminuição significativa das ondas alfa, que normalmente atuam para inibir imagens visuais quando a pessoa está relaxada de olhos fechados. A queda nessa faixa de frequência aparentemente permite ao cérebro gerar a profusão de mirações características da ayahuasca.
Foi nos dados da linha de base, contudo, que surgiram as medidas com poder preditivo e possibilidade de aplicação na clínica, para tornar a psicoterapia psicodélica mais segura e benéfica –isso se um dia esses alteradores de consciência chegarem ao SUS. Quem sabe?
Observou-se que os voluntários com baixa atividade beta antes de tomar ayahuasca reportavam depois da experiência ter experimentado alegria e emoções mais positivas durante a viagem. Daí a conclusão de que índices mais altos na linha de base indicariam maior probabilidade de viagens ruins (“bad trips”).
Wiessner pondera que o estudo tem várias limitações, daí a predição de que ainda haveria 5 a 10 anos à frente de estudos para confirmar seus resultados e chegar a aplicações clínicas. Por exemplo, alguns dos 25 participantes que tomaram ayahuasca adormeceram durante a sessão de dosagem, o que levou à exclusão de seus dados, diminuindo o poder das correlações estatísticas obtidas com as observações remanescentes.