O Brasil é considerado uma máquina de produção de conhecimento científico, mas falta à pesquisa nacional mais impacto. Do que precisamos, então, para integrar grupos de países com pesquisa mais destacada e desenvolvida? Talvez as respostas não surpreendam, por tratarem de problemas postos há tempos: atratividade da carreira científica, financiamento e um norte claro para a ciência nacional.

Os relatórios mundiais sobre pesquisa científica deixam clara a potência do Brasil. Uma das formas mais usadas para verificar a contribuição de um país é a partir dos estudos que cientistas de instituições da nação publicam em revistas especializadas, a exemplo de Science e Nature.

Nesses termos, estamos muito bem. Olhando para um espaço de cinco anos recentes, de 2019 a 2023, foram 458.370 publicações —o período e o números são referentes ao relatório da Clarivate, apresentado em 2024 pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Desde 2014, são mais de 50 mil publicações anuais.

O país encontra-se um tanto quanto estagnado em sua atual posição no ranking mundial de publicação. De toda forma, isso não necessariamente é negativo. O número de anos recentes nos põe próximos aos dados da Coreia do Sul, internacionalmente reconhecida por inovação e importância dada à pesquisa científica. Além disso, à nossa frente, encontram-se nações com pesquisa de ponta, como Estados Unidos —hoje com desafios à ciência sob o governo Trump—, China, Reino Unido e Alemanha.

Mas só a quantidade total de artigos publicados não necessariamente é o segredo da coisa. Um ponto de destaque a ser levado em consideração é a quantidade de citações, ou seja, quanto uma pesquisa é citada por outras, o que pode demonstrar relevância, visibilidade e influência científica.

E nesse ponto o Brasil não está lá muito bem. Considerando o total de estudos altamente citados, o país se encontra abaixo da média mundial. Menos de 6% (dados de 2023) das publicações brasileiras estão entre os 10% de pesquisas mais citadas no mundo e essa porcentagem está em queda desde 2019, de acordo com o relatório mencionado acima. A média mundial é de 10%.

Analisar estatísticas mais específicas é importante, contudo não é necessário ir tão longe. Talvez a melhor forma de compreender as questões que afligem e freiam a ciência nacional seja a partir da figura central da ciência, sem a qual nada funciona: o cientista.

“Enquanto a ciência de fora é em especial feita pelos pós-docs [pós-doutorandos], no Brasil não tem pós-doc”, afirma Helena Nader, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciências).

Isso sem contar, claro, a questão financeira associada a decidir tomar o rumo da ciência. No Brasil, quem se dedica à pós-graduação acaba sendo dependente de bolsas de auxílio que, em geral, são consideravelmente baixas, não incluem benefícios, como auxílio-saúde, tampouco contam com contribuição para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Para se ter uma ideia, após uma década sem aumento, o governo Lula (PT) reajustou as bolsas de pós-graduação em 40%. Com isso, em 2023, mestrandos, doutorandos e pós-doutorando passaram a receber, respectivamente, R$ 2.100, R$ 3.100 e R$ 5.200, sem outros benefícios trabalhistas. Nos EUA, por exemplo, um pós-doutorando pode ter ganhos a partir de mais de US$ 5.000 mensais —com um poder de compra totalmente diferente dos R$ 5.000 do Brasil.

Segundo Nader, em meio a tantos entraves, cresce o desinteresse pela carreira. “Não tem um apelo. Não tem uma cenourinha para você pôr para o coelho correr. Tem a raposa correndo atrás do coelho.”

E é exatamente isso que os números apontam. Dados da Capes mostram que, se de 2015 a 2019 crescia o ingresso de brasileiros na pós-graduação, a partir de então, a tendência passou a ser de queda.

O mesmo relatório aponta que, considerando dados de 2022, cerca de+têm mestrado. Em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) a média é de 14,1%. Para doutorado, a situação também é discrepante: 0,3% no Brasil contra 1,3%, na média, na OCDE —só o México tem uma taxa pior que a brasileira.

“Estes resultados colocam o Brasil em posição desfavorável no cenário internacional”, consta no relatório.

A tudo isso ainda se junta a insegurança de verbas que ronda a ciência nacional, governo sim e outro também, com não raros congelamentos, cortes e falta de verba —apesar do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), hoje principal financiador da ciência nacional, com mais de R$ 17 bilhões de orçamento, em 2026, segundo o Portal da Transparência do Governo Federal.

Falta um norte para direcionar a ciência do Brasil, dizem especialistas. “Eu julgo importante a necessidade, em termos de política de Estado, de diretrizes direcionadoras para essa massa de pesquisadores que a gente tem nos ambientes de pesquisa do país”, afirma Francilene Procópio Garcia, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Garcia cita os 14 anos que o Brasil passou sem uma Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, encontro que auxilia nos planos para ciência. Agora, após o evento, em 2024, está sendo desenhada uma estratégia nacional de ciência, tecnologia e inovação e, provavelmente, um plano decenal, diz a presidente da SBPC.

Relatório do Ministério de Relações Exteriores (MRE) de 2025 elenca diversos pontos, colhidos entre países com realidades econômicas distintas, que podem levar uma nação a ser líder da inovação. Um deles é “o estabelecimento de metas explícitas de investimento em pesquisa e desenvolvimento, visando garantir financiamento previsível e sustentável”.

Na mesma linha, as especialistas apontam como caminho a maior destinação do PIB (Produto Interno Bruto) para ciência. O Brasil investe cerca de 1,2% de seu PIB em ciência, segundo dados até 2023 —as variações de ano para ano se mantêm próximas a esse valor. A Coreia do Sul, sua vizinha de ranking de publicações, 5,2%, em 2022, segundo o relatório do MRE e dados do Banco Mundial.

Nader, porém, diz que antes era muito mais crítica sobre como o país estava aquém. Hoje acha que, “frente ao que temos, estamos até que muito bem.”

E com os desenvolvimentos tecnológicos cada vez mais rápidos, ainda há tempo para entrar de vez nessa corrida?

“Dá para entrar, mas não em todas. Algumas nós vamos ter que fazer parcerias. Outras nós podemos ainda ser liderança”, afirma Nader.

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