Viajar para longe da Terra pode ser considerado um privilégio e tanto, e para poucos. Pensando no mais longe para onde a humanidade já foi, somente 24 pessoas chegaram às redondezas da Lua e metade delas colocou os pés lá —todos homens brancos e quase todos nascidos nos Estados Unidos.
Apenas cinco deles permanecem vivos e poderão ver, possivelmente, a história começar a mudar um pouco com a missão Artemis 2, da Nasa, com um possível lançamento em março.
É claro que se tratava de uma época diferente —fim dos anos 1960 e começo dos 1970—, sem o intercâmbio para o programa espacial que vemos hoje, como a parceria da ESA (a agência espacial europeia) na construção da cápsula Orion, que aproximará do satélite natural os integrantes da Artemis 2. Era também a era da Guerra Fria, com uma disputa intensa entre EUA e União Soviética.
Apesar disso, vale destacar que pesquisadoras e cientistas negros e negras já tinham importante contribuição, inclusive na agência espacial americana, uma situação que deu origem ao livro e ao filme “Estrelas Além Do Tempo”.
Além do retorno à órbita lunar, a Artemis 2 também vai diversificar a lista de pessoas que já se aproximaram da Lua.
Estão na missão Christina Koch e Victor Glover, respectivamente a primeira astronauta mulher e o primeiro astronauta negro a embarcarem em uma jornada lunar —eles foram escolhidos no governo democrata de Joe Biden; a administração republicana de Donald Trump tem se mostrado avessa a quaisquer menções de diversidade.
Fora isso, agora pelo lado de parcerias internacionais, o canadense Jeremy Hansen será o primeiro não americano a fazer a viagem. O quarto integrante da tripulação é o americano Reid Wiseman —pela primeira vez, aliás, uma viagem lunar terá mais de três astronautas.
As presenças humanas menos americanas na Lua anteriormente —claro, sem considerar as sondas de diferentes nacionalidades que já chegaram lá, inclusive recentemente— vinham de William Anders, nascido em Hong Kong, filho de um militar americano, e de Michael Collins, astronauta da Apollo 11 que ficou na órbita lunar enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin deram os primeiros passos humanos na Lua.
Collins nasceu em Roma, na Itália, e era filho de um adido militar dos EUA no país, mas sua família se mudou de volta para os Estados Unidos quando o futuro astronauta tinha cerca de um ano e meio de idade.
Em uma entrevista, ele disse que não se incomodava de ter chegado tão perto e não ter pisado no satélite natural.
“Sinceramente, me senti muito privilegiado por estar na Apollo 11. Quer dizer, havia caras no escritório de astronautas que teriam cortado minha garganta de orelha a orelha para ter um daqueles três assentos”, afirmou à Michelle Kelly, como parte do Johnson Space Center Oral History Project. “Fiquei muito satisfeito por ser um daqueles três. Eu tinha o melhor dos três? Não. Mas estava satisfeito com o que eu tinha? Sim! E não tenho nenhum sentimento de frustração ou rancor ou coisa do tipo. Estou muito, muito feliz com tudo isso.”
Outra diferença da Artemis 2 para as outras viagens lunares é uma média de idade consideravelmente mais alta. Caso consiga cumprir seu objetivo, ela se tornará a missão à Lua com a maior média de idade —49 anos. Também marcará o astronauta mais velho a cumprir esse tipo de jornada —dois membros com 50 anos, Wiseman e Glover.
Antes da Artemis 2, a Apollo 14, em 1971, tinha sido a missão com média de idade mais alta: 41 anos.
Mas, para que tudo isso se torne de fato parte da história humana na Lua, a missão Artemis 2 precisa superar os problemas de vazamento de combustível observados em um ensaio no começo deste mês e se lançar da Terra em direção ao mais distante que o seres humanos já chegaram em carne e osso no espaço—até hoje.