Chamar alguém de “negacionista” tem se tornado recorrente no debate nacional: tudo que parece estranho ou simplesmente não está alinhado com as ditas “verdades científicas” é logo tachado de negacionismo. Em alguns casos, “negacionista” acaba sendo apenas o rótulo que damos a alguém de quem discordamos.
Nessas situações, essas pessoas são descritas como alienadas ou desinformadas, um padrão que mais atrapalha do que ajuda. O primeiro passo para não cair nessa visão estereotipada é mudar o foco: não se trata de algo individual nem episódico.
Esse tipo de acusação atravessa até mesmo nossa vida cotidiana. No dia a dia, lidamos com dilemas muito concretos ligados ao sofrimento, ao cuidado e ao bem-estar. Para dar conta deles, recorremos a uma variedade de alternativas disponíveis. Ao lado da medicina e da ciência ocidental, o cardápio de soluções a nosso dispor inclui astrologia, espiritualidades, psicoterapias alternativas, medicinas não convencionais e saberes místicos ou não ocidentais.
Não raro, fazemos um uso conjugado dessas soluções. Procuramos especialistas credenciados pela ciência, ao mesmo tempo que consultamos a astrologia ou recorremos à religião. Não há nada de contraditório nesse arranjo. Acusar essas práticas de negacionismo, além de inócuo, é ignorar que se trata de decisões pragmáticas, que conciliam, sem grandes conflitos, saberes científicos e outras matrizes de conhecimento.
O fato é que pessoas e grupos se relacionam com a ciência de maneira profundamente seletiva. “Esse conhecimento me interessa? Que parte dele me é útil? Com quais conclusões concordo moralmente? Quais afrontam meus valores?” É mais ou menos assim que operam nossos filtros valorativos e cognitivos diante de achados e consensos científicos.
Ao contrário do que supõe boa parte dos especialistas, raras vezes a ciência funciona como guia exclusivo para nossas orientações existenciais. Isso não significa rejeitá-la, mas situá-la entre outros saberes que também produzem sentido e eficácia.
Curiosamente, esse mesmo mecanismo de seletividade também está presente entre grupos mobilizados por retóricas negacionistas. Eles não rejeitam a ciência em bloco: selecionam o que aceitar, o que distorcer e o que rejeitar, sobretudo quando percebem que alguns consensos científicos ameaçam certos interesses ou valores morais e identitários. É aqui que o negacionismo deixa de ser uma escolha ordinária e passa a se tornar um problema coletivo.
É justamente por isso que confundir negacionismo com escolhas individuais ou com o recurso a saberes alternativos reforça um estereótipo enganoso.
O negacionismo não nasce da pluralidade de práticas cotidianas, mas da exploração organizada dos choques entre ciência, valores e políticas públicas. Ele se sustenta na fabricação de informação falsa feita por empresas, influenciadores e partidos que lucram com a desconfiança seletiva na ciência. Tratar tudo isso como mera ignorância individual não só obscurece o problema, como acaba alimentando aquilo que se pretende combater.
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